Sequestro em Sydney deixa 3 mortos; Irã diz ter alertado sobre extremista

Polícia invade café na cidade australiana e mata sequestrador que havia começado a atirar nos reféns; criminoso tinha histórico de problemas com a Justiça e tomou o local na manhã desta segunda-feira (horário local)

JORGE BECHARA - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2014 | 20h58

SYDNEY, AUSTRÁLIA - Policiais do Estado de Nova Gales do Sul invadiram na madrugada (13h10 no horário de Brasília) desta segunda-feira, 15, um café em Sydney, na Austrália, para libertar 17 reféns detidos por um fundamentalista islâmico. O cerco de quase 16 horas terminou com três mortos – incluindo o sequestrador, o refugiado iraniano Man Haron Monis – e quatro feridos.

Autoridades australianas deram poucos detalhes sobre as vítimas, um homem de 34 anos e uma mulher, de 38. A polícia afirma que só invadiu o Lindt Cafe depois de ouvir disparos dentro do estabelecimento e da fuga de pelos menos cinco reféns. Segundo o comissário Andrew Scipione, a prioridade era salvar o máximo de pessoas possível. “Mais vidas seriam perdidas se a invasão não ocorresse naquele momento”, disse.

Os policiais que participaram da operação estavam fortemente armados e usaram bombas de efeito moral na invasão. Os feridos foram levados para dois hospitais da cidade, entre eles a goiana Márcia Mikhael, naturalizada australiana, que vive no país há 20 anos. Ela trabalha como gerente de projetos no Westpak, um banco australiano cuja sede fica perto do Lindt Cafe.

Durante o cerco, alguns reféns apareceram ao lado de uma bandeira islâmica, o que aumentou os temores de que o ataque estivesse ligado a alguma organização terrorista – o que foi descartado depois. Segundo autoridades, Monis agiu sozinho. 

A operação começou pouco depois de uma fonte policial ter identificado o invasor como um refugiado iraniano que se autodenominava xeque. Monis, de 50 anos, tinha várias passagens pela polícia. Entre as acusações, agressão sexual e cumplicidade no assassinato de sua ex-mulher. Segundo o iraniano, todas as acusações contra ele tinham “razões políticas” e eram “perseguição do governo”. Na sexta-feira, ele saiu derrotado mais uma vez dos tribunais em uma apelação para que as acusações fossem arquivadas pela Suprema Corte. 

Seu advogado, Manny Conditsis, declarou que a ideologia de seu ex-cliente “era tão forte que desafiava bom senso”. “Com as derrotas nos tribunais, ele deve ter pensado que não tinha nada a perder e decidiu fazer algo terrível”, afirmou. 

Sem ligação oficial com grupos terroristas, Monis era vigiado por agências antiterrorismo do governo da Austrália e dos EUA. Seu website e sua página no Facebook foram tiradas do ar durante o sequestro.

Embora o sequestrador fosse conhecido das autoridades, especialistas em segurança disseram que evitar ataques de pessoas que agem por conta própria é praticamente impossível.

Reação. Em seu primeiro pronunciamento após a invasão, o premiê australiano, Tony Abbott, alertou para o fato de a Austrália não estar “imune a atos de violência política”. Abbott disse ainda que o iraniano se “identificava com o culto da morte do Estado Islâmico”. “Tragicamente, há muita gente em nossa comunidade pronta para se lançar em atos de violência política”, declarou. 

De acordo com Abbott, as razões que levaram Monis a invadir o café e manter vários reféns ainda não estão totalmente claras, mas que o iraniano tinha um histórico de violência e problemas mentais. 

O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou ontem o sequestro. “Recorrer a medidas desumanas e criar terror em nome da compassiva religião do Islã não é justificável sob nenhuma circunstância”, disse a porta-voz da chancelaria, Marzie Afjam, em comunicado.

Segundo ela, o Irã, “em repetidas ocasiões”, apresentou às autoridades australianas a condição mental e psicológica de Monis. “Há duas décadas, ele (o sequestrador) se refugiou na Austrália e sua situação estava totalmente clara para os responsáveis do país (Austrália).” 

O presidente dos EUA, Barack Obama, foi informado durante a madrugada sobre o caso e chegou a discutir o assunto com Lisa Monaco, sua principal assessora de contraterrorismo. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmou estar “profundamente preocupado” com o caso e se solidarizou com as vítimas. / COM AGÊNCIAS

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