Ser implacável ou ficar de fora

Durante anos acompanhei uma zona de exclusão aérea na Bósnia. Vi bósnios muçulmanos sendo massacrados enquanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) patrulhava os céus. A zona de exclusão foi criada pelos Conselho de Segurança da ONU em outubro de 1992. O massacre de Srebrenica ocorreu em julho de 1995. É suficiente.

Roger Cohen, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

A zona de exclusão aérea bósnia foi uma tentativa para aliviar as consciências ocidentais depois do frenesi de assassinatos da Sérvia contra muçulmanos nos primeiros seis meses da guerra. Tratava-se de salvar vidas; suspender o grotesco embargo de armas contra a Bósnia poderia ter conseguido isso. Mas o que se queria era permitir que os políticos em Washington e Paris sentissem que estavam fazendo alguma coisa, mesmo que débil, com relação ao genocídio.

Tendo assistido à mais asquerosa hipocrisia na Bósnia - o Ocidente, que nas palavras de Margaret Thatcher, tornou-se "cúmplice do massacre" - recuso-me a aceitar uma falsidade similar no caso dos bravos resistentes em Benghazi enfrentando os tanques de Muamar Kadafi, que agora se dirigem implacavelmente para o Leste. Zonas de exclusão aérea servem para pássaros.

O que se deve perguntar de fato é se a vergonha do Ocidente no caso da Bósnia não se repetirá na Líbia: não deveria o presidente Barack Obama liderar uma intervenção militar ocidental coordenada, apoiada pela Liga Árabe na Líbia, para conter Kadafi? É uma questão difícil. Eu a consideraria fácil depois da guerra da Bósnia, quando eu era um veemente intervencionista. Não sou mais.

Na vida, é preciso olhar para a frente, mas ela só pode ser compreendida conhecendo o passado. Ele poderia ter acrescentado que "caso contrário, você terá problemas". Iraque e Afeganistão forneceram lições poderosas sobre o custo de um planejamento rápido (ou nenhum), a facilidade de entrar numa guerra, a agonia para sair dela, e os limites do poder de fogo ocidental.

Mas há mais uma lição histórica. Ruanda pagou o preço pela mal planejada intervenção dos Estados Unidos na Somália. O genocídio de Ruanda em 1994 ocorreu e os EUA nada fizeram, em parte porque, com o fiasco na Somália, os americanos relutaram em intervir.

Podemos permitir que o fiasco do Iraque impeça uma intervenção ocidental na Líbia enquanto o clã Kadafi derrama "rios de sangue"? É um exercício prosaico, mas vamos oferecer argumentos em favor e contra uma intervenção militar ocidental:

Contra: 1 - O fascinante poder moral da primavera árabe emana do fato de ela ter se originado nos próprios países. Árabes superando o medo para se tornarem agentes da sua própria transformação e libertação. Nada envenenaria mais rapidamente esse movimento do que um colonialismo ocidental numa nova forma (é como Kadafi o descreverá e ele terá um público concordando com isso).

2 - Uma intervenção dos EUA na Líbia reforçará o antigo argumento de que Washington só se envolve no Oriente Médio para assegurar interesses. E ela só intensificará o antiamericanismo regional.

3 - Os EUA não podem se permitir uma terceira guerra num país muçulmano. A discussão em torno de uma intervenção ocidental revela uma profunda incompreensão do poder em declínio do Ocidente. Quando a guerra da Bósnia irrompeu, as grandes nações ocidentais representavam 70% da economia global. Hoje esse porcentual é de 50% - e está caindo. "O fardo do homem branco" não é a história; é sua história passada.

4 - A intervenção vai se converter num longo impasse militar que desviará o Ocidente daquilo que deve ser seu objetivo estratégico essencial: uma democracia decente no Egito que, tendo uma população 13 vezes maior que a da Líbia, é o pivô do despertar árabe.

5 - A legalidade de qualquer intervenção é discutível.

A favor: 1 - Obama e outros líderes ocidentais não podem declarar seu objetivo de destituir Kadafi e depois ficar inertes enquanto as pessoas que se levantaram para derrubá-lo são massacradas. É tão criminoso quanto encorajar os xiitas do Iraque a criar uma resistência, como ocorreu em 1991, e depois assistir ao seu massacre por Saddam.

2 - As promessas de Obama de que lutará pelos direitos humanos vão ficar em frangalhos se Kadafi conseguir se impor. Da mesma maneira que a população bombardeada de Sarajevo mereceu ser apoiada militarmente - o que foi decisivo em 1995 - também a população de Benghazi merece ser ajudada.

3 - Kadafi, como Milosevic, é um tirano fraco. Está lutando ao longo de uma estreita faixa da costa. O apoio que desfruta é superficial. Navios de guerra no Mediterrâneo podem bombardear as estradas costeiras, podemos interferir em suas comunicações, fornecer armas, dinheiro e treinamento para uma resistência desorganizada e ele desmoronará.

4 - A primavera árabe no Norte da África será aniquilada se Kadafi conseguir se recuperar. Ferido, como um animal encurralado, ele poderá cometer as piores coisas.

5 - Kadafi é um assassino em massa que derrubou o avião da Pan Am (com 270 pessoas a bordo) e o UTA (com 170 passageiros), crimes hoje confirmados pelo seu ex-ministro da Justiça. Assassinou milhares de líbios país durante décadas. Difícil encontrar um argumento de ordem moral mais poderoso do que este para a eliminação de um líder.

O que está claro para mim é que não há solução intermediária. Desprezemos os gestos para aliviar a consciência. Os argumentos contra uma intervenção só podem prevalecer se o Ocidente - com o apoio e a união da Liga Árabe - decidir que, de modo implacável, vai derrotar, remover e, se necessário, matar Kadafi. Estou cético quanto a se chegaremos a essa determinação. Mas a intervenção terá sentido somente se ela estiver presente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E ESCRITOR

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