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STRINGER | REUTERS
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‘Será muito difícil combater a propaganda do EI’

Francesa acreditou nas promessas do grupo e viajou para ser voluntária em Raqqa; depois quis voltar e foi feita prisioneira

Entrevista com

Sophie Kasiki, autora do livro 'Nas sombras do Estado Islâmico'

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2016 | 03h00

A congolesa naturalizada francesa Sophie Kasiki (nome fictício) viveu desde os 9 anos na França e foi educada dentro da religião católica, mas decidiu, em 2015, abandonar a vida que tinha ao lado do marido para se dedicar a uma promessa de ser voluntária em uma maternidade. Com 34 anos, ela pegou o filho, de 4 anos, e foi para Raqqa, na Síria, para se juntar “aos meninos”, como chamava três jovens que auxiliava em Paris como assistente social.

“Quando chegamos a Raqqa, fui rapidamente presa”, afirmou Sophie ao Estado sobre a chegada ao local que descobriu ser uma cidade-modelo do Estado Islâmico. A jovem se deixou iludir pelo discurso dos meninos que ajudava e, aos poucos, percebeu como eles se tornaram “fanáticos perigosos”, atuando para servir ao califado. A promessa era ficar um mês como voluntária na maternidade local, mas com dez dias decidiu que queria voltar para casa.

“Devolvam meu telefone e meu passaporte. Diariamente eu repetia isso. Insistia, lembrava a palavra que tinham me dado, andava atrás deles no apartamento, mostrando mecanismos pelos quais o EI pretensamente paradisíaco os manipulava e cegava. Tudo inútil”, relata a jovem no livro Nas sombras do Estado Islâmico (Editora Best Seller), em que decidiu contar o que passou e tentar evitar que mais jovens sejam atraídos por falsas propagandas do grupo extremista.

Por que você decidiu escrever o livro?

Quando a oportunidade apareceu, decidi escrever para contar as mentiras e o sofrimento causado pelo Estado Islâmico a todas as pessoas que não querem aderir aos ideais dele. E contar sobre o que passei em Raqqa. Meu objetivo é dissuadir a ida de outros infelizes, sobretudo mulheres e jovens garotas.

Como foi o início da sua vida com o Estado Islâmico?

No começo, quando chegamos a Raqqa, “os meninos” que eu conhecia se comportaram de maneira tão comum que até pareciam normais. Mas eu fui rapidamente presa e fiquei chocada com as grandes armas portadas pela maioria dos estrangeiros.

Que mudança fez você decidir voltar para casa?

Na base onde ficávamos, os jovens diziam que poderiam me levar de volta à França após um mês e por isso não era necessário que eu dissesse onde ia ou fosse embora. Mas, depois de dez dias, vendo o comportamento perigoso e desrespeitoso deles, que acabaram machucando mulheres estrangeiras e sírias que davam à luz no hospital onde eu era voluntária, além das trocas de mensagens na internet com meu marido, decidi que queria voltar mais cedo.

Você sofreu algum tipo de violência?

Sim, a partir do momento em que comecei a pedir aos jovens que me ajudassem a voltar, seu comportamento em relação a mim mudou. Eu me tornei suspeita, eles desconfiavam de mim e eu desconfiava deles.

O que aconteceu quando você voltou à França?

Na volta à França, parti sob custódia dos agentes da direção-geral para Segurança Interna para responder aos questionamentos deles.

Como você vê a propaganda de recrutamento utilizada pelo EI? É possível combatê-la?

Será muito difícil combater rapidamente a propaganda do Estado Islâmico, que infelizmente é muito forte e moderna. Os países deveriam combater em terra e nós usando nossos testemunhos, para prevenir que mais pessoas partam para a morte certa.

Como você vive hoje?

Há mais de um ano voltamos de Raqqa e tivemos a sorte de podermos reconstruir nossa família e seguir com a vida.

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