Será possível existir um 'mundo russo' diferente?

Transição do pensamento imperial para a ideia de nação passa pela batalha de intelectuais à margem dos holofotes

TIMOTHY GARTON ASH, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2015 | 02h03

Somente os russos poderão decidir qual poderia ser um "mundo russo diferente" e isso levará algum tempo. A nova Rússia certamente não chegará no próximo dia 9 de maio, quando o Kremlin de Vladimir Putin comemorará o 70º aniversário do fim da Grande Guerra Patriótica. Talvez só chegará no dia 9 de maio de 2025, ou mesmo de 2045, mas nunca deveremos abandonar a esperança na outra Rússia - e devemos manter a fé nos russos que estão trabalhando por ela.

A frase "perdeu um império e ainda não encontrou um papel próprio" foi aplicada pela primeira vez à Grã-Bretanha, por um ex-secretário de Estado americano. Os britânicos conhecem tão bem quanto qualquer outra nação como é desconfortável, inicialmente, perder um império - e como é difícil encontrar um novo papel. Segundo alguns, a Grã-Bretanha ainda não chegou lá. Aliás, o destino do império central original, o que forjou as quatro nações das ilhas - Inglaterra, Gales, Escócia e (atualmente, apenas uma pequena parte dela) Irlanda - num Reino supostamente Unido, ainda não foi decidido. Esse é um dos principais temas das eleições gerais da Grã-Bretanha.

Entretanto, pelo menos, essas ilhas internamente complexas eram cercadas por água, deixando a maior parte do império britânico no "além-mar". O império da Rússia é terrestre, que foi crescendo pedaço por pedaço ao longo dos séculos. Como o historiador Geoffrey Hosking afirma em seu livro Russia People and Empire, o problema histórico da Rússia está no fato de que ela nunca conseguiu distinguir claramente entre a nação e o império. Na realidade, "a construção de um império impediu a formação de uma nação".

Além disso, enquanto o império britânico se dissolveu lentamente em mais de 20 anos, o império russo-soviético foi desmantelado em pouco mais de dois anos, entre 1989 e 1991 - um dos mais espetaculares processos de dissolução da história.

Seria extraordinário se não houvesse uma resposta confusa e indignada por parte de muitos na Rússia depois desse acontecimento. Sob a atual liderança, essa reação assumiu uma forma perigosa. Neste momento, precisamos encarar esse perigo com firmeza. Além disso, existe a questão do que pensamos e falamos a respeito da Rússia. Um equívoco é o daqueles que se tornaram conhecidos em toda a Europa como os Putinversteher - literalmente, "os que compreendem Putin". Confundindo Putin com a Rússia, cometem um erro clássico: "compreender tudo equivale a perdoar tudo".

Os homens de negócios alemães parecem particularmente propensos a fazer essa confusão. O escritor russo Vladimir Voinovich, autor de dois dos mais belos romances satíricos da literatura europeia do século 20, certa vez me contou uma história ocorrida com ele quando foi convidado para jantar por um banqueiro alemão, nos anos 80. O banqueiro mandou seu motorista buscá-lo num Mercedes do tamanho de um tanque de guerra e Voinovich foi recebido com um lauto jantar, ao longo do qual o alemão explicou ao então escritor russo exilado que era preciso entender adequadamente o trauma russo. Durante toda a história, a infeliz Rússia havia sido invadida pelos mongóis, pelos poloneses, pelos franceses e, finalmente, pelos alemães, os piores de todos. As pessoas deviam verstehen - entender. No fim, Voinovich não aguentava mais e perguntou: "Então, por que ela é tão grande? ".

Hoje, Voinovich continua um escritor satírico e também corajoso representante sem papas na língua da outra Rússia, que criticou a anexação da Crimeia e a guerra no leste da Ucrânia. Numa recente entrevista a um site russo, ele disse que a Rússia precisa de uma revolução - não uma revolução violenta, nem mesmo uma revolta no estilo da revolução laranja da Ucrânia, mas "uma revolução que deveria ocorrer na mente das pessoas. Putin não é o único que deve ser responsabilizado, mas também a sociedade, por permitir que ele faça o que quer".

Como lhe é peculiar, Voinovich explicitou uma verdade complexa. Existe uma outra Rússia. Ela é representada por Boris Nemtsov, recentemente assassinado, e pelas pessoas que costumam depositar flores na ponte onde ele foi morto, que já está sendo chamada de Ponte Nemtsov. Embora alguns obviamente se tenham apavorado com o assassinato - e apesar da atmosfera de violenta intimidação -, a confiança de alguns mais corajosos cresceu. Alexei Navalni, blogueiro da oposição, responsabilizou diretamente o regime de Putin pela morte de Nemtsov. O assassinato provocou várias tentativas de unir a fragmentada oposição, como uma nova aliança eleitoral entre os partidos fundados por Nemtsov e Navalni.

A outra Rússia também é representada por ativistas que planejaram uma "marcha pela paz e pela liberdade" há duas semanas. Pelo grupo teatral Teatr Doc. Por Lena Nemirovskaya, a líder inspiradora da Escola de Estudos Políticos de Moscou. Pelo fundador da importante rede social russa VKontakte, Pavel Durov, que hoje vive no exterior. Por Mikhail Khodorkovski, o oligarca que se tornou preso político e depois defensor da campanha por um país melhor, exilado. E por muitos outros, cada qual de uma maneira diferente.

Quando Thomas Mann chegou ao seu exílio americano, procedente da Alemanha nazista, disse: "Onde eu estiver, ali estará a Alemanha". Todos esses russos têm o direito de dizer: "Onde eu estiver, ali estará a Rússia".

Quando Khodorkovski diz ao público em Londres, no entanto, que "Putin não é a Rússia, nós é que somos", ele faz uma retórica afirmação de princípios, não uma precisa descrição da realidade. A verdade é que Putin, pelo que podemos julgar até este momento, desfruta de enorme apoio popular. Nesse sentido Putin também é a Rússia. Os alemães sabem melhor que ninguém que isso acontece às vezes com as nações, e então, um dia, elas acordam com a maior ressaca.

Compreender o que a Rússia deveria ser, traçar a linha entre nação e império, implica estabelecer um novo tipo de relacionamento com os vizinhos que falam sua língua e compartilham de grande parte da cultura e da história. Nos últimos anos, Putin se apropriou indevidamente do termo "mundo russo" - russky mir - e transformou-o num slogan político que praticamente implica "se você fala russo, pertence à Rússia". Não precisa ser assim e os vizinhos, na maior parte, não querem que seja. Estive em Minsk há três semanas e o chanceler disse a nosso grupo de estudos que sua visão a longo prazo é a Bielo-Rússia transformada numa espécie de Suíça. Bom, talvez ainda falte um bocado, mas a questão é clara. Muitos suíços falam alemão, mas nem por isso a Suíça precisa ser parte da Alemanha.

O mesmo é óbvio em relação aos vários universos de língua espanhola, francesa, portuguesa e inglesa. Em seu interior existem vínculos culturais, econômicos e políticos muito próximos, mas nós não queremos fazer parte do mesmo Estado ou império. Tenho mais primos canadenses que britânicos. A relação entre Grã-Bretanha e Canadá é pelo menos tão peculiar quanto a que existe entre Rússia e Ucrânia. No meu caso, como no de muitos russos e ucranianos, literalmente é como se tudo se passasse em família. Mas - e meus primos canadenses ficarão aliviados ao ouvir isto -, a anexação de Toronto e a restauração da América do Norte britânica não estão sendo propostas atualmente em Londres. Esses países vivem muito melhor juntos, contudo separados. O mesmo será válido para a Rússia e seus primos. Se os mundos de língua espanhola, francesa, portuguesa e inglesa puderam realizar a transição do complexo passado imperial para as afinidades eletivas atuais, o mesmo poderá ocorrer com o mundo de língua russa. E um dia ocorrerá. / Tradução de Anna Capovilla

* É professor de estudos europeus da Universidade Oxford, seu livro mais recene é 'Facts are subversive: Political Writing From a Decade Without a Name'

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