Será que a 'revolução democrática' está perdendo força em El Salvador?

Partido formado por ex-guerrilheiros FMLN tenta se manter no poder no segundo turno das eleições

Seth Robbins - The Christian Science Monitor,

03 de fevereiro de 2014 | 17h49

Tomás Minero entrou para a Frente de Libertação Farabundo Martí (FMLN) nos anos 1980, quando era adolescente, num momento em que a sangrenta guerra civil vivida no país começava a ganhar força. Nos 11 anos seguintes ele combateu em nome do grupo guerrilheiro marxista: participou de ofensivas, escapou da prisão e foi baleado duas vezes. Depois que a FMLN assinou acordos de paz, entregou suas armas e se converteu num partido político esquerdista em 1992, Minero e muitos outros ex-combatentes seguiram o mesmo rumo. Minero é hoje o prefeito de Ciudad Delgado, um município populoso de classe trabalhadora a nordeste da capital do país.

"Ser prefeito é mil vezes mais difícil do que ser guerrilheiro", diz ele, sentado no gabinete pouco mobiliado. "Como guerrilheiros, nossa única obrigação era combater, planejar e ter a consciência forte. Como prefeito não se pode sonhar, é preciso tomar decisões o tempo todo." O dilema vivido por Minero representa a encruzilhada na qual a FMLN se encontra como um todo.

A FMLN precisou substituir os comandantes linha dura por Mauricio Funes, um popular jornalista televisivo sem elos com a guerrilha, para que o grupo pudesse chegar à presidência em 2009 após quase duas décadas de governo conservador. Hoje, quando os salvadorenhos forem às urnas para eleger seu próximo presidente, a FMLN segue dividida entre o passado guerrilheiro e a necessidade de participar da política e conquistar votos. Mas o grupo - que durante anos criticou os partidos tradicionais fazendo o papel de oposição - viu-se acusado de camuflar sua participação na negociação de uma controvertida trégua entre gangues rivais, e sofre pressão por causa de manobras legais e negócios suspeitos.

A FMLN está "mais interessada em conquistar os corações da antiga oligarquia - pois esses são agora seus parceiros de negócios -, e não os corações dos pobres ", diz William Osmar Chamagua, pastor e diretor da emissora comunitária Radio Mi Gente, de San Salvador.

Calcula-se que a corrida presidencial será acirrada, e o candidato da FMLN, o atual vice-presidente Salvador Sánchez-Cerén, parece ter ligeira vantagem sobre o candidato da conservadora Aliança Republicana Nacional (ARENA), Norman Quijano, e um terceiro candidato, o ex-presidente Antonio Saca, atraindo parte dos eleitores de direita. Nenhum dos candidatos deve alcançar a marca de 50% dos votos, necessária para evitar um segundo turno, que seria realizado no próximo mês.

A oposição. "A FMLN de hoje é muito diferente do grupo guerrilheiro da época da guerra", diz Chamagua, acrescentando que mudanças são esperadas quando ex-guerrilheiros saem das montanhas para ocupar assentos no legislativo e participar de reuniões de negócios em hotéis luxuosos. Após a assinatura dos acordos de paz, a FMLN expandiu constantemente sua influência e parecia prestes a ganhar as eleições presidenciais de 2004, até o grupo nomear como seu candidato o ex-comandante guerrilheiro Shafik Handal, um linha-dura. Handal morreu dois anos mais tarde, e alguns dizem que a morte dele abriu caminho para uma aliança entre a FMLN e o presidente Funes, em fim de mandato.

Os políticos conservadores não foram capazes de retratar Funes como um comunista, e a eleição de Funes "permitiu (que a FMLN) trabalhasse com setores da sociedade com os quais (o grupo) dificilmente trabalharia (se não fosse pela aliança com Funes)", como líderes empresariais, diz Minero, o prefeito. O governo Funes implementou projetos bem sucedidos de transporte e infraestrutura, em parte graças a essas relações.

Mas, durante os cinco anos em que esteve no poder, a FMLN foi ágil em se livrar das críticas e - de acordo com o que dizem alguns - em calar a oposição. Os protestos tiveram início em junho de 2011 depois que Funes assinou uma lei exigindo que os cinco juízes do mais elevado tribunal do país chegassem à unanimidade antes de emitirem uma decisão. Muitos descreveram a jogada como política - uma maneira de repreender juízes que se envolveram em espinhosos casos de corrupção, e para impedir que a lei de anistia ligada à guerra civil seja questionada.

Em setembro do ano passado, o senador democrata Patrick Leahy, do Estado americano de Vermont, fez um alerta contra a prorrogação do acordo que prevê investimentos da ordem de US$ 277 milhões em ajuda destinados a El Salvador, dizendo que "o país ainda tem instituições democráticas enfraquecidas, e a independência do judiciário foi atacada recentemente", entre outras críticas contundentes. Funes e Sánchez-Cerén responderam prontamente, dizendo que Leahy estava mal informado.

Nos últimos meses, Funes e a FMLN foram criticados por negar seu envolvimento na negociação de uma trégua entre duas das mais violentas gangues de rua do país. Uma investigação do jornal online El Faro revelou que um conglomerado do setor energético, Alba Petróleos, avaliado em US$ 800 milhões, tem laços com membros do alto escalão da FMLN - algo que os representantes do governo se recusam a comentar publicamente.

A FMLN tem dificuldades em lidar com as críticas, em parte "porque eles sempre se enxergaram como oposição", diz Ellen Moodie, professora assistente de antropologia e estudos latino-americanos da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. O vice-reitor da Universidade Luterana de San Salvador, Dagoberto Gutiérrez, que fez parte do alto comando da FMLN durante a guerra, diz que o partido deixou para trás a ideologia marxista e agora defende como meta a "revolução democrática", rompendo com os movimentos sociais tradicionais como organizações comunitárias de trabalhadores e agricultores.

Os críticos de esquerda, entre eles Gutiérrez, dizem que a maioria dos programas sociais instituídos pela FMLN não passa de brindes aos pobres: copos de leite gratuitos nas escolas, sapatos para as crianças e material escolar. Ainda que a FMLN tenha instituído crédito para os pequenos agricultores e reduzido as mensalidades escolares, a maioria dos programas é "paliativa - não se trata de propostas capazes de romper o ciclo de pobreza que já dura gerações", diz Jeannette Aguilar, diretora do Instituto de Opinião Pública da Universidade Centro-Americana de San Salvador.

Mas Jeannette diz que esses programas atraíram a simpatia do eleitorado, especialmente nas áreas mais pobres e rurais, algo que ajuda Sánchez-Cerén nas pesquisas de intenção de voto. Para um ex-líder guerrilheiro como Gutiérrez, "a FMLN morreu no dia em que a guerra acabou". Num programa semanal de rádio apresentado por ele na Radio Mi Gente, Gutiérrez disse recentemente aos ouvintes que não votar, deixar a cédula em branco ou escrever 'nulo' são opções válidas nas eleições - e também uma forma de demonstrar a frustração com o cenário político salvadorenho./ Tradução de Augusto Calil

 
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