Será que os ilhéus querem mesmo 'autonomia'?

A Ilha de Jersey revoltou-se. Ela ameaça a Grã-Bretanha. Se David Cameron e seus ministros continuarem a aborrecê-la, Jersey proclamará sua independência. Ela soltará as amarras que a prendem à Grã-Bretanha desde 1204.

Gilles Lapouge,

29 de junho de 2012 | 03h07

A Ilha de Jersey não é grande coisa. Com uma superfície de 119,49 quilômetros quadrados e 97.857 habitantes, é um país microscópico mesmo se lhe adicionarmos os dois recifes - de Ecrébon e Minquiers - que controla. No entanto, sua cólera impressiona Londres ainda que a rainha Elizabeth II, que continua sendo a soberana de Jersey (com um título bizarro e cheirando a Idade Média, de "duquesa da Normandia"), ainda não tenha ameaçado enviar até ela a Marinha Real, como fez com as Malvinas.

Qual a razão de todo esse estardalhaço? O peso histórico, primeiro.

Todos os cônjuges sabem: não se interrompe uma relação de um milênio sem um aperto no coração. E isso não é tudo. Jersey é magnífica. Os turistas a adoram. As pessoas veem-se cercadas pela violência do mar. E o clima permite instalar ali aqueles jardins extraordinários que os britânicos tanto apreciam.

De mais a mais, Jersey tem bancos. Muitos bancos. Bancos sutis, já que Jersey, de longa data um paraíso fiscal, também emprega seus talentos para facilitar a vida daqueles pobres milionários que o fisco britânico gosta de depenar.

O que deixou David Cameron com a pulga atrás da orelha é o caso de um astro britânico da comédia, Jimmy Carr. Esse Jimmy, que ganha somas monumentais, havia montado um lindo circuitozinho: ele colocava seu dinheiro em Jersey num "trust", uma estrutura jurídica opaca, e o recuperava sob a forma de empréstimos. Desse jeito, ele só pagava 1% de impostos sobre sua fortuna. Foi isso que levou Cameron a se debruçar sobre os meandros fiscais e financeiros de Jersey.

O ministro-chefe e senador de Jersey, Philip Bailhache, esperneou.

Os habitantes de Jersey, que são chamados ora de jersianos, ora de (não se sabe bem por que) "sapos", vingam-se lembrando que o pai de David Cameron fez fortuna precisamente nos paraísos fiscais e era o presidente de um fundo de investimentos (o Close International Asset Management) com base em... Jersey.

Eis por que Jersey ameaça declarar sua independência. "A ilha precisa se preparar para se defender", martelou Phlip Bailhache. Mas a batalha de Jersey é mais uma batalha "pela honra", pois a ofensiva contra Jersey é conduzida, de fato, não por Londres, mas por Bruxelas, pela União Europeia. É por isso, aliás, que a Ilha de Jersey, cuja diplomacia é assegurada pela Secretaria de Relações Exteriores (Foreign Office) de Londres, abriu no ano passado uma embaixada em Bruxelas e, neste ano, vai abrir uma segunda embaixada... em Londres.

Os habitantes da ilha estão furiosos, mas não muito. Eles estão inquietos, mas não muito. Sabem que sua ilha continuará sendo um pedaço do Império Britânico, como é desde 1204. Eles se unem pela ironia. Lembram-se que Jersey, em 1066, pertencia a um Ducado da Normandia na França, cujas tropas transpuseram o Canal da Mancha e tomaram o poder na Inglaterra.

Ora, entre os soldados do duque francês da Normandia, naquele tempo, havia alguns soldados de Jersey. Daí que os "sapos" também têm o hábito de dizer, à noite, contemplando seu belo litoral, a impetuosidade do mar e, ao longe, a direção de Londres: "Afinal, fomos nós que conquistamos a Inglaterra, em 1066, com o duque da Normandia. Portanto, a Inglaterra pertence a Jersey, e não o inverso." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.