John Moore/Getty Images/AFP
John Moore/Getty Images/AFP

Será que Trump finalmente foi longe demais?

Política desumana de separar filhos dos pais oferece exemplo de como ações do presidente estão destruindo a vida de pessoas comuns

Max Boot / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2018 | 05h00

Até agora o trumpismo tem sido um crime sem vítimas. Ou, para ser exato, um crime cujas vítimas são anônimas. O presidente Donald Trump vem provocando graves danos à nossa democracia com seus ataques à imprensa, ao FBI, aos negros e à oposição. Do mesmo modo, vem prejudicando muito a posição internacional dos Estados Unidos, atacando aliados, elogiando inimigos, iniciando guerras comerciais e rasgando acordos internacionais.

Muitas pessoas têm alertado que os EUA pagarão um preço muito alto no longo prazo por esses atos destrutivos de Trump. No entanto, é difícil citar pessoas que já foram atingidas. As guerras comerciais, por exemplo, já afetam principalmente os fazendeiros de Iowa e as montadoras de Michigan, mas grande parte do impacto se dissipará para os consumidores e pode nem ser notado imediatamente.

No entanto, com sua política desumana de separar os filhos de imigrantes ilegais de seus pais na fronteira com o México, o presidente finalmente oferece um exemplo ao vivo, direto para a câmera, de como suas medidas estão destruindo as vidas de pessoas comuns. Este caso vai muito além de outros anteriores, como o dos imigrantes deportados depois de décadas contribuindo para o país, O sofrimento de adultos não desperta tanto a simpatia popular como no caso de crianças maltratadas.

As mais de 2 mil crianças tiradas de suas famílias em um período de seis semanas e estocadas em locais que algumas pessoas comparam aos campos de concentração nazistas, não são vítimas teóricas e presumidas. São muito reais e sua terrível situação é algo deplorável. Finalmente, o impacto do trumpismo tem um rosto: o de uma menina hondurenha de 2 anos aos prantos cuja foto foi estampada na capa do New York Daily News com o título: “Cruel. Brutal. Covarde. Trump.”

Desespero. E não é somente o Daily News – um crítico regular do presidente – que considera essa política de separação de famílias repugnante. Também o seu concorrente, o New York Post, um dos grandes apoiadores de Trump e, segundo consta, o seu favorito. A mesma mensagem foi enviada pela normalmente apolítica ex-primeira-dama Laura Bush, que comparou a detenção das crianças imigrantes à detenção dos americanos japoneses na 2.ª Guerra. 

Outro que também se manifestou foi o líder evangélico Franklin Graham, que sempre fez apologia de Trump. Ele qualificou a medida de “vergonhosa” e “terrível”. Até mesmo Melania Trump, atual primeira-dama, condenou a separação das famílias.

Esta política é tão horrenda que Trump e seus subordinados se sentem compelidos a mentir, afirmando que estão apenas colocando em prática uma legislação que os democratas se recusam a revogar – embora estes decretos sádicos sejam inteiramente resultado de uma decisão política do Executivo. Por que o presidente faz algo assim tão funesto? Porque Trump está desesperado.

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Sua prioridade número um tem sido barrar a chegada de imigrantes na fronteira. Mas, em maio, foram presas mais de 50 mil pessoas cruzando a fronteira pelo terceiro mês consecutivo. Um número três vezes maior do que o registrado em maio de 2017, mostrando que, apesar de todo “fogo e fúria”, ele não conseguiu proteger a fronteira com o México. 

Falta de apoio. Fracassando em sua principal tarefa, ele então ataca mulheres e crianças indefesas na esperança de que sua falta de humanidade possa dissuadir outros imigrantes. Diante da indignação generalizada que esta política diabólica desencadeou, você deve concluir que o presidente finalmente foi longe demais. Salvo num aspecto. 

Os carneiros em roupagem republicana rejeitam romper com ele, mesmo diante de um fato tão cruel. Quarenta e nove senadores apoiaram a lei da senadora democrata Dianne Feinstein, batizada de Keep Families Together (“Mantendo as famílias unidas”), mas nenhum republicano a respaldou. Mesmo a senadora Susan Collins, do Estado do Maine, republicana bastante moderada, criticou a política de separação de famílias, mas não há apoio para revogá-la. 

Só posso especular que o Partido Republicano, ao ver a sorte de críticos do presidente, como o deputado Mark Sanford, republicano da Carolina do Sul, que foi derrotado na sua primária depois de o presidente, pelo Twitter, apoiar seu oponente – têm tanto medo de ir contra o vingativo homem forte da Casa Branca que voluntariamente estão se afastando do sentido do que é certo e errado.

Covardia. Portanto, não faz nenhuma diferença o fato de as vítimas de Trump finalmente serem visíveis – e lastimavelmente serem crianças. Seus aliados republicanos são tão covardes, tão insensíveis e tão abjetos em sua desonra que permitirão qualquer sofrimento humano para não se arriscarem a suportar a ira do presidente. 

No final, Trump pode acabar decidindo acabar com a política de separação de famílias simplesmente para conter o dilúvio de publicidade desastrosa para ele, mas não será forçado a agir pelo Congresso. Se ele mantivesse no país os imigrantes latino-americanos trabalhadores e deportasse esses desprezíveis e covardes republicanos, isso realmente aumentaria a grandeza dos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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