'Seria burro, após Chávez, cortar ajuda aos pobres'

Para analista, chavismo e unidade opositora se implodirão em várias facções, caso eleição não seja marcada para breve

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h02

Editor do jornal de Caracas TalCual, Teodoro Petkoff é um dos principais críticos do governo de Hugo Chávez. E também um dos mais analíticos observadores do regime chavista. Para ele, há uma clara divisão do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) entre facções lideradas por Nicolás Maduro e Diosdado Cabello.

Parte dos eleitores de Hugo Chávez teme o fim dos subsídios do governo caso a oposição ganhe. Eles seriam cortados?

Se a oposição ganhar, só tem uma opção, manter e aumentar os subsídios. Teria de ser muito burro para, depois de Chávez, cortar a ajuda aos pobres.

O que lhe pareceu a sugestão de chavistas, apresentada pelo presidente da Assembleia, Diosdado Cabello, de adiar a posse caso Chávez não apareça em 10 de janeiro?

Estão se precavendo diante da possibilidade de Chávez não assumir. Creio que ele vem, ainda que seja na maca, e volta no dia seguinte a Cuba. Mas como diz Cabello, as datas são flexíveis. Modificar a data seria inconstitucional e o Tribunal Supremo obviamente seria favorável a isso. Se ele não vem, deveria ser considerada falta absoluta, Cabello assumiria a presidência para convocar novas eleições. Na prática, podem fazer o quiserem.

Se novas eleições foram convocadas, a oposição pode ganhar de um candidato que não seja Chávez?

Nenhum chavista calça as botas de Chávez. Veja que na última eleição, ele ganhou por só com 4 pontos acima de 50%. Em uma nova confrontação, não me atrevo a assegurar que ganhe o candidato chavista. Isso se a eleição ocorrer logo. Se demorar muito, também já não seria necessariamente Capriles o candidato. Ledezma (Antonio Ledesma, prefeito de Caracas que em 2009 fez greve de fome contra a falta de repasse de verbas do chavismo) é um nome forte.

Uma demora na convocação de uma nova eleição favoreceria a qual dos lados?

Se a coisa passar de três meses, implodem os dois grupos. Tanto a situação como a oposição vão se dividir.

O chavismo também, mesmo que Chávez tenha nomeado a Maduro como sucessor?

Chávez o nomeou porque não tem outro candidato. Se depender de Chávez, esse candidato será Maduro. Chávez está consciente desta possibilidade, tanto que pediu que votassem 'de todo o coração' em Maduro. Agora, Cabello está trabalhando pela presidência. Chávez sabe que Maduro é fiel ao seu projeto, mas Diosdado tem seus próprios objetivos, que estão à direita da direita. Diosdado está muito à direita, toda a vida esteve. No primeiro e segundo anos de governo, fez questão de dizer que não era comunista.

Tudo se decidirá no dia 10, caso Chávez apareça ou não diante da Assembleia para a posse?

Antes é preciso ver o que ocorre no dia 5. Há uma eleição para a presidência da Assembleia. Diosdado tem 32 votos dos chamados cabellistas, entre os 97 do chavismo em geral (o Parlamento está composto por 165 deputados). Mas os votos restantes, dentro do chavismo, não são deles. Não sei quantos serão de Maduro. Mas com certeza a área civil do chavismo está trabalhando pela derrota de Diosdado. / R.C.

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