Série de erros levou governo Bush a optar pela invasão

Cenário: Joseph Nye / Project Syndicate

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE HARVARD, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h01

Este mês assinala o décimo aniversário da controvertida invasão do Iraque liderada pelos americanos. O que provocou essa decisão no decorrer da última década? Mais importante, terá sido acertada a decisão de invadir o Iraque?

Quanto aos aspectos positivos, os analistas apontam para a queda de Saddam Hussein, para a criação de um governo eleito e de uma economia que registra um crescimento de cerca de 9% ao ano, com as exportações petrolíferas ultrapassando os níveis registrados no período anterior à guerra.

Alguns, como é o caso de Nadim Shehadi, da Chatham House, vão mais além, argumentando que, apesar de "os Estados Unidos terem tido os olhos maiores do que barriga no que diz respeito ao Iraque", a intervenção americana "poderá ter sacudido a região de uma situação de estagnação que dominou a vida de pelo menos duas gerações".

Os céticos respondem que seria incorreto relacionar a Guerra do Iraque com a Primavera Árabe, pois os acontecimentos na Tunísia e no Egito, em 2011, tiveram suas próprias causas, enquanto as ações e a retórica do presidente George W. Bush desacreditavam, ao contrário de promoverem, a causa da democracia na região. A retirada do poder de Saddam foi importante, mas o Iraque é, atualmente, um local violento governado por um grupo sectário e está em 169.º lugar no índice da corrupção, que engloba 174 países.

Custo-benefício. Os céticos argumentam que os benefícios da guerra, sejam eles quais forem, são muito reduzidos para justificarem os custos: mais de 150 mil iraquianos e 4,5 mil militares americanos mortos e um gasto que ultrapassa US$ 1 trilhão (sem incluir aqui os custos com problemas de saúde e com os cerca de 32 mil soldados incapacitados ou feridos.

Talvez esse balanço pareça diferente daqui a uma década, mas, neste momento, a maior parte dos americanos chegou à conclusão que os céticos têm razão e essa forma de pensar influenciou a política externa dos Estados Unidos. Na próxima década, é pouco provável que o país tente outra ocupação prolongada ou a transformação de um outro país.

Como disse Robert Gates, ex-secretário de Defesa, pouco tempo antes de deixar o cargo, qualquer conselheiro que recomende tal ação "deverá consultar um psiquiatra". Alguns consideram que essa ideia significa isolacionismo, mas poderá ser mais adequado chamá-la prudência ou pragmatismo. Afinal, em 1954, o presidente Dwight Eisenhower recusou-se a enviar tropas americanas para salvar os franceses em Dien Bien Phu, por temer que fossem "engolidas pelas divisões" no Vietnã. E não se pode dizer que Ike fosse isolacionista.

Apesar de dez anos não serem suficientes para formularmos um veredicto definitivo sobre as consequências de longo prazo da Guerra do Iraque, uma década é o bastante para julgar o processo utilizado pelo governo Bush na tomada de decisões.

Bush e a sua equipe utilizaram três argumentos principais para justificarem a invasão do Iraque. O primeiro ligava Saddam à Al-Qaeda. As sondagens de opinião pública mostram que muitos americanos aceitaram a certeza do governo Bush com relação a essa ligação, mas as provas não a sustentaram. De fato, as provas apresentadas publicamente eram pouco sólidas e exageradas.

O segundo argumento era o de que a substituição do regime de Saddam por um regime democrático seria uma forma de transformar a política no Oriente Médio. Vários neoconservadores tinham recomendado uma mudança de regime no Iraque antes de assumirem o cargo, mas não conseguiram converter essa proposta numa iniciativa política durante os primeiros oito meses de governo. Após o 11 de Setembro, eles conseguiram fazer aprovar rapidamente sua proposta, usando a janela de oportunidade que os ataques terroristas tinham aberto.

Bush referiu-se frequentemente a mudanças de regime e a uma "agenda das liberdades", com partidários que mencionavam o papel desempenhado pelas tropas americanas durante a democratização da Alemanha e do Japão após a 2ª Guerra. No entanto, o governo Bush foi descuidado no uso que fez de analogias históricas e foi imprudente ao se descuidar de uma preparação adequada para uma ocupação eficaz.

Armas de destruição em massa. O terceiro argumento pretendia impedir que Saddam possuísse armas de destruição em massa. A maioria dos países concordava que ele tinha desafiado as resoluções do Conselho de Segurança da ONU durante uma dúzia de anos. Além disso, a Resolução 1441 colocou, unanimemente, o ônus da prova em Saddam.

Mais tarde, mesmo quando Bush foi censurado por não ter descoberto as tais armas, a opinião amplamente partilhada por governantes de outros países era a de que Saddam possuía esse tipo de armamento. O uso da prudência poderia ter permitido aos inspetores da ONU ganhar tempo, mas Bush não cometeu sozinho esse erro.

Bush afirmou que a história iria redimi-lo e comparou-se com o presidente Harry Truman, que deixou o cargo com um baixo índice de popularidade em razão da Guerra da Coreia e, no entanto, atualmente a opinião a seu respeito é positiva. Será que a história será igualmente benevolente com Bush?

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