EFE/Cadu Gomes
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Serra recebe venezuelano, faz críticas a Maduro e atenua crise com Uruguai

Em reunião com deputado opositor, chanceler diz que governo de Caracas é ‘autoritário, discricionário e repressivo’ e pede pressão para a realização, este ano, do referendo revogatório

Lu Aiko Otta / Brasília, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2016 | 05h00

Após reunir-se com o deputado opositor Luis Florido e com o coordenador político do partido Voluntad Popular, Carlos Vecchio, o chanceler brasileiro, José Serra, subiu nesta quarta-feira o tom das críticas ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Em nome do governo do Brasil, ele ofereceu ajuda para reconstruir o país vizinho, uma vez “desfeito esse governo autoritário e ressurgindo a democracia.”

 Serra afirmou que deseja “ardentemente” que seja realizado este ano o referendo revogatório, previsto na Constituição da Venezuela, que pode encerrar o mandato de Maduro. “Todos os países democráticos deveriam pressionar a Venezuela para que realize esse referendo”, defendeu.

Segundo Serra, o governo venezuelano tem manobrado para protelar o referendo para 2017. Pela lei venezuelana, uma decisão contrária a Maduro este ano levaria a novas eleições. Mas, se ele perder o mandato no ano que vem, quem assume é seu vice, transformando o referendo numa “farsa”, segundo o chanceler brasileiro.

Apesar do apoio, Serra não respondeu se o Brasil enviará observadores às manifestações programadas para o dia 1º. Florido disse que convidou Serra e os senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Aécio Neves (PSDB-MG) a observar os protestos. A marcha, afirmou ele, “marcará um antes e depois na Venezuela.”

Questionado se achava que deveria haver esse um referendo também no Brasil, Serra respondeu que não. Ele argumentou que, quando ainda estava no Senado, foi convidado a relatar uma proposta de revogatório de mandatos políticos. Mas ele considera que a realidade do País, com seus 5,5 mil municípios e 27 Estados, é “muito complexa” e exigiria outro tipo de solução.

Prisão de López. Os oposicionistas conversaram com Serra também a respeito da confirmação, na semana passada, da sentença contra Leopoldo López. Ele foi condenado a 14 anos de prisão por incitação à violência. Serra classificou o governo venezuelano de “autoritário, discricionário e repressivo”. E reafirmou que o país desrespeita direitos humanos, o que o impede de assumir a presidência do Mercosul, no qual ingressou por meio de um “golpe”.

“A Venezuela não vai assumir a presidência, isso é seguro”, reafirmou o chanceler. Em janeiro, pelo sistema rotativo, o bloco passa a ser presidido pela Argentina.

Serra também lamentou o fato de Maduro não haver aceitado a oferta de medicamentos básicos produzidos por laboratórios públicos brasileiros. O país vive um quadro agudo, com desabastecimento de 95%. “A Venezuela é um país sem rumo no momento”, disse.

O opositor Carlos Vecchio agradeceu a Serra e ao governo brasileiro pela pressão que tem exercido sobre a Venezuela em relação à presidência do Mercosul. Ele avaliou que está em curso, no seu país, um processo de mudança “irreversível” e que a oposição quer liderá-lo de maneira pacífica.

Em Buenos Aires, a chanceler argentina, Susana Malcorra, afirmou que diplomatas do bloco estudam o que fazer desde o dia 12, quando terminou o prazo para a Venezuela se adaptar às normas. “Vamos ter de obter um consenso para decidir se a opção é aumentar o prazo de cumprimento, considerar desrespeitado ou ampliar o prazo sob certas condições.” Um plano sairá da reunião marcada para o dia 23. 

Questionada sobre o aumento da tensão após chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, ter acusado o Brasil de tentar comprar seu apoio com vantagens em negociações comerciais, Malcorra afirmou que a Argentina não recebeu pressão de ninguém e “não resolveria certas questões pela imprensa”.

Depois de ter chamado o embaixador uruguaio a consultas, um gesto diplomático de descontentamento, o Itamaraty afirmou nesta quarta-feira que considerava o episódio encerrado após Nin Novoa ter ligado para Serra para dizer que tudo não passou de um mal entendido. E o Brasil, que vem tentando conquistar o apoio do Uruguai dentro do Mercosul, decidiu colocar uma pedra em cima do assunto.

“A questão foi esclarecida e não há mais nenhum problema no nosso trabalho conjunto com o Uruguai”, informou Serra. “Ele (Nin Novoa) considera que houve um mal entendido, um equivoco da parte deles.”

Integrantes do Parlamento do Mercosul (Parlasul) encontram-se ontem com Novoa. Eles pretendem se reunir com Serra e depois com os demais chanceleres do bloco. A saída mais provável seria a adoção de uma comissão temporária para liderar o Mercosul, embora o Uruguai se mostre contra. / COLABOROU RODRIGO CAVALHEIRO

 

 

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