Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Serviço secreto venezuelano interroga 7 donos de farmácia e 2 ficam presos

Cerco. Executivos da maior rede de farmácias do país foram presos no domingo sob acusação de ocultar produtos para provocar escassez e 'irritar a população'; oposição reage e Henrique Capriles diz que Maduro aprofunda crise cada vez que 'abre a boca'

FELIPE CORAZZA , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 02h03

O governo da Venezuela manteve detidos, ontem, dois executivos da maior rede de farmácias do país, acusados de ocultar produtos para provocar escassez e "irritar a população". O Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), o serviço secreto do país, interrogou, ao todo, sete diretores da Farmatodo detidos no domingo - cinco foram soltos.

O chefe de governo do Distrito Federal, Ernesto Villegas, anunciou que blitze foram feitas no mercado Día a Día, também em busca de produtos regulados pelo governo que teriam sido escondidos pelos comerciantes. "Não tinham (nas prateleiras do mercado) produtos básicos regulados, mas, sim outros similares fora de regulação."

De acordo com fontes ouvidas pelo Estado, a rede Día a Día, que tem 35 lojas no país, será expropriada pelo governo venezuelano. Não haveria planos, porém, de assumir o controle da Farmatodo.

O governo acusa os comerciantes de forçarem os consumidores a fazer fila e a comprar itens que não estão na lista de preços controlados. Segundo os chavistas, muitos mercados guardam as mercadorias que conseguem importar para vender no mercado paralelo que se fortalece no país - a preços muito mais altos do que o estabelecido.

A oposição venezuelana reagiu com indignação à nova ofensiva do governo no que chama de "guerra econômica". Henrique Capriles, líder do partido Primero Justicia e candidato derrotado pelo chavismo ao Palácio de Miraflores em 2012 e 2013, afirmou que o presidente, Nicolás Maduro, aprofunda a crise "cada vez que abre a boca". "O barril de petróleo já está abaixo dos US$ 40 e a pouca iniciativa privada que resta é perseguida. O que busca Nicolás? Uma convulsão? Um golpe?"

Capriles, que foi candidato pela coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) definiu o tom que foi seguido ontem pelos outros partidos contrários ao chavismo. O coordenador nacional do Voluntad Popular (partido de Leopoldo López, que está preso desde o ano passado), Freddy Guevara, afirmou que o processo conduzido contra a Farmatodo é sinal do "nível de radicalização comunista" do governo. "Não vamos permitir que o bando de loucos que está no governo leve o país a uma guerra civil ou a um massacre."

Outra líder da MUD, a ex-deputada María Corina Machado, manifestou "solidariedade com os empregados, gerentes e donos da Farmatodo. Esse regime, em fase terminal, arremete contra todos os que produzem e criam algo no país".

Em defesa do "combate" conclamado por Maduro no setor econômico, o ex-deputado e atual presidente do Conselho Municipal de Caracas, Naúm Fernández, afirmou ao Estado que a oposição é responsável por tentar criar o clima de instabilidade e falta de segurança alimentar. "No ano passado, tentaram convocar uma greve geral nas vendas de comida. Isso fez com que as pessoas saíssem nervosamente a fazer compras."

Fernández disse que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do governo, confia na "consciência política" da população para apoiar Maduro.

Mídia. Outra frente aberta pelo chavismo na "guerra econômica" é o enfrentamento dos veículos de imprensa que dão notícias contrárias ao governo. Ontem, a ministra das Relações Exteriores, Delcy Rodríguez, afirmou que haverá "ações" contra os meios de comunicação que "atacaram a Venezuela", sem especificar quais serão as ações ou os veículos .

Na semana passada, Maduro ameaçou processar o jornal ABC, da Espanha, por ter publicado uma denúncia contra o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. Maduro também disse que seriam acionados judicialmente os veículos que reproduzissem a notícia de que o Cabello seria o chefe do narcotráfico no país, conforme denúncia do ex-chefe de segurança de Cabello, Leamsy Salazar, refugiado nos EUA.

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