Evgenia Novozhenina/REUTERS
Evgenia Novozhenina/REUTERS

Serviços russos de inteligência voltam a atuar na Europa, de forma agressiva e visível

Nos últimos meses, Bulgária, Holanda, Áustria, França e República Checa expulsaram diplomatas acusados de espionagem

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 15h00

ROMA - Os serviços russos de Inteligência, que gozavam de sólida reputação, tiveram um forte ressurgimento de sua atividade na Europa nos últimos anos, mas as disputas entre Moscou e os países ocidentais têm vindo cada vez mais à tona.

Na semana passada, a Itália anunciou a expulsão de dois funcionários russos, após a prisão de um oficial da Marinha italiana que entregava documentos confidenciais para um militar russo.

Muitos diplomatas russos acusados de espionagem foram expulsos nos últimos meses de Bulgária, Holanda, Áustria, França e República Checa. Moscou reagiu, de maneira recíproca, em cada caso, e afirmou que as acusações são sem fundamento e "russofóbas".

"A Inteligência russa adotou uma mentalidade de guerra. Ela pensa que se trata de uma batalha existencial pelo lugar da Rússia no mundo", diz Mark Galeotti, um escritor especializado em assuntos de segurança russos. Para ele, 2014 foi um ano crucial. "A revolução na Ucrânia, para o presidente russo Vladimir Putin, foi uma operação da CIA e do MI6", afirmou.

Segundo Andrei Soldatov, editor-chefe do site russo Agentura.ru, especializado em assuntos de Inteligência, "eles acham que a menor ação ocidental, como criticar as violações de direitos humanos, ou o trabalho de jornalistas estrangeiros, pode provocar uma revolução".

De fato, os serviços secretos russos vão além, indo do suborno de espiões à corrupção de funcionários estrangeiros, praticado por todas as grandes potências.

Em 2018, o ex-agente duplo Sergei Skripal foi alvo de uma tentativa de assassinato por envenenamento no Reino Unido. Um ano depois, um homem suspeito de atuar sob as ordens de Moscou matou em Berlim um ex-combatente rebelde checheno.

"Em confiança"

Os ocidentais agora acusam a Rússia de ter envenenado com um agente nervoso do tipo Novichok Alexei Navalni, o principal opositor de Putin, que conseguiu se recuperar após passar cinco meses em tratamento na Alemanha. Após seu retorno à Rússia, ele foi preso.

Então, os serviços russos são todo-poderosos? Não.

Navalni e Skripal sobreviveram, e seus agressores foram desmascarados. Além disso, uma mulher morreu, e um policial ficou gravemente ferido no ataque no Reino Unido.

A plataforma de jornalismo investigativo Bellingcat também identificou uma dezena de agentes, ao detectar práticas recorrentes na criação de identidades falsas por parte da Inteligência militar (GRU) e dos serviços de segurança (FSB).

Mikhail Liubimov, um coronel reformado dos serviços soviéticos da KGB, lamenta a "degradação ideológica" dos agentes e destaca um contexto geopolítico desfavorável.

Antes da queda do Muro de Berlim, havia "sindicatos poderosos e partidos de esquerda, nos quais podíamos nos apoiar", lembra ele.

Andrei Soldatov descreve, por sua vez, serviços corrompidos e enfraquecidos por medo de expurgos.

"Ao apostar na entrega dos agentes, em vez do profissionalismo, você obtém espiões dóceis, mas incompetentes", acrescentou.

Da mesma forma, o fato de esses eventos virem à tona levanta questões. Houve um tempo em que estes escândalos eram resolvidos longe das câmeras, mas agora, não se trata mais de fraqueza, e sim de comunicação.

"Advertência"

"O Novichok é um método mais pesado do que os usados na Rússia, onde dissidentes e oponentes 'defenestram' habitualmente", ironiza o Soufan Center, um think tank americano.

Moscou "envia uma mensagem clara para aqueles que ousam desafiar Putin". E a Rússia reafirma "se sentir suficientemente confiante para matar figuras da oposição", diz.

"Quando você usa um agente nervoso como o Novichok para assassinar alguém, é porque se quer que isso venha a público", comentou Damien Van Puyvelde, um especialista em Inteligência da Universidade de Glasgow (Escócia).

Diante dessa situação, os europeus também decidiram agir. Alguns episódios vazaram, como quando o diário francês Le Monde revelou, no final de 2019, que 15 oficiais do GRU usaram os Alpes como base para operar na Europa durante quatro anos.

"Esta é uma advertência", disse um alto funcionário francês que conhece bem a situação. "A postura é deixar claro que não vamos mais tolerar esses comportamentos", afirmou. 

Após o caso Skripal, o do avião da Malaysia Airlines derrubado no leste da Ucrânia e dos escândalos das interferências russas nas eleições ocidentais, "há, talvez, uma espécie de exaustão coletiva e uma necessidade de os europeus de fazerem comunicação política", segundo Van Puyvelde. "Continuam havendo linhas vermelhas", afirmou. /AFP

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