Sete passos simples para afastar os russos da Ucrânia

ANÁLISE:

James Stavridis*, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 03h45

A boa notícia a respeito da anexação russa da Crimeia é o fato de ela reduzir substancialmente a parcela restante da população de etnia russa na Ucrânia - 15% do total, longe de ser uma massa crítica, menos ainda uma maioria oprimida. O novo regime em Kiev precisará de bons conselhos para conter a insurgência. Eis sete lições específicas:

1. Sabotar a insurgência com todos os meios políticos e econômicos. Isso significa uma poderosa campanha de estratégia defendendo a ideia de que uma Ucrânia unida e coesa é o lar de todos os ucranianos, seja qual for seu idioma principal e independentemente da origem de seus ancestrais. Uma mensagem inclusiva vai conquistar parte dos ucranianos de etnia russa. O melhor futuro para a Ucrânia não está em políticas pró-Rússia ou pró-Otan, e sim pró-Ucrânia.

2. Oferecer um futuro econômico que faça sentido. O Ocidente deve oferecer estímulos econômicos saudáveis sob a forma de empréstimos do Fundo Monetário Internacional, assistência da UE e financiamento dos EUA - o que parece estar se materializando. Boa parte do trabalho de combate à insurgência consiste em proporcionar "opções de emprego" alternativas àquelas oferecidas pelos líderes rebeldes; felizmente, a maioria dos jovens prefere ter um emprego ou oportunidades de ensino em vez de detonar carros-bomba por aí.

3. Proteger a população da Ucrânia dos efeitos da insurgência. Isso significa uma poderosa presença policial e militar quando necessário, controlando a violência nas manifestações (que devem ser permitidas num país democrático), usando estratégias para retomar prédios do governo usando força mínima e manter os serviços do governo em funcionamento - da emissão de certidões de casamento aos tribunais de Justiça. 4. Controlar as fronteiras. Esta é uma lição dolorosamente aprendida no Afeganistão e no Vietnã. Isso será difícil, dados os recursos e a posição geográfica da Rússia - especialmente agora que a Crimeia foi anexada. Aí entra o apoio militar ocidental em espionagem, vigilância, compartilhamento de informações, logística e fornecimento de equipamento básico (como dispositivos com visão noturna e equipamento de comunicação), orientação e treinamento.

5. Defender o país de ataques cibernéticos. A Ucrânia está sob constante ataque eletrônico da Rússia e precisa de auxílio e proteção para operar com eficácia na contenção de uma oposição violenta.

6. Legitimar o novo governo de Kiev. As eleições marcadas para o início de maio são cruciais para desmontar a narrativa insurgente de um "golpe ilegal" que teria tomado a capital pela força. Até o momento, os preparativos para a eleição avançam normalmente e a demografia do país indica uma vitória de Kiev nas urnas.

7. Proporcionar capacidade militar para o combate aos insurgentes. A Rússia fornece e continuará a fornecer apoio com espionagem, armas, munição e, provavelmente, soldados (das forças especiais Spetznaz) para orientar a insurgência a desestabilizar e deslegitimar Kiev. Essa pressão só vai aumentar após a eleição de maio. O Ocidente deve pensar numa assistência (sem o envio de soldados) com espionagem, orientação, armamento de pequeno porte, sensores luminosos, assistência canina e outras ferramentas clássicas de combate à insurgência. Isso pode ser feito facilmente pelos canais da Otan.

Combater a insurgência é um trabalho árduo, como mostram Vietnã, Iraque e Afeganistão. Espera-se que a Rússia não opte pela invasão e ainda há esperança para negociações que deixem o futuro nas mãos do povo ucraniano - não daqueles que mexem pauzinhos em Moscou.

*James Stavridis é almirante da reserva da Marinha americana e professor da Faculdade de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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