Setembro será vital para diplomacia dos EUA

Obama põe seu legado em jogo com questão nuclear do Irã e conflito israelense-palestino

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Com os EUA envolvidos em duas guerras - Iraque e Afeganistão -, o presidente Barack Obama usará setembro para avaliar o resultado de seu esforço para evitar novos conflitos no Oriente Médio. No fim do mês, esgota-se o prazo para o Irã dialogar sobre a questão nuclear - e há risco de novas sanções ao país. Em breve, a disputa entre Israel e palestinos deve voltar à mesa de negociação, com Obama apresentando sua proposta na Assembleia-Geral da ONU, em duas semanas.

O resultado da estratégia de Obama, segundo analistas ouvidos pelo Estado, será conhecido em alguns meses. Caso fracasse, o presidente talvez tenha de lidar com um cenário ainda mais grave do que o atual.

Para Gary Sick, professor da Universidade Columbia, os iranianos passam por sua maior crise política desde a Revolução de 1979, com enorme perda de legitimidade do regime. Lembrando que a própria queda do xá Reza Pahlevi demorou um ano, Sick adverte que ninguém pode prever como o Irã estará daqui alguns meses.

Com a incerteza em Teerã e a pressão de Israel sobre os EUA, Obama tem de tomar alguma atitude. "O mais correto é tentar dialogar, ainda que não produza frutos aparentes na questão nuclear", diz Sick. "A consequência seria o fortalecimento da oposição iraniana. Com os EUA dispostos a conversar, radicais, como presidente Mahmoud Ahmadinejad, teriam mais dificuldade para dizer que os americanos são hostis."

Na frente palestina, de acordo com Gary Gambill, editor do Middle East Monitor, uma das principais publicações sobre o Oriente Médio, Obama enfrentará dificuldades para conseguir concessões de Israel sobre os assentamentos por causa da composição da coalizão do governo israelense. No entanto, ele pode persuadir o premiê Benjamin Netanyahu a reduzir o bloqueio à Faixa de Gaza.

Outro obstáculo é a debilidade do Fatah, que controla a Autoridade Palestina e não consegue cumprir as obrigações com Israel. O Hamas já deu sinais de que concorda com uma solução temporária de dois Estados, mas isso não foi suficiente para convencer Israel. "Os EUA, por enquanto, não devem conversar diretamente com o Hamas, a não ser por intermediários", diz Paul Salem, diretor do Centro de Oriente Médio do Carnegie Institute, em Beirute..

Segundo ele, se não houver avanço nas duas frentes em um ano, há grande risco de conflito. "Se existe esperança no caso palestino, o ceticismo prevalece na disputa Israel-Irã. Será difícil Obama evitar um confronto entre Israel e Hezbollah ou uma guerra entre israelenses e iranianos", afirma Salem.

Para Gambill, chegará um ponto em que a questão nuclear iraniana será intolerável para Israel. "Sem alternativa, eles levarão adiante uma ação militar", aposta. "Washington pode até influenciar no momento da ação, mas o ataque de Israel é quase inevitável." Gambill diz que o Hezbollah está pronto para um conflito contra os israelenses se houver um ataque ao Líbano, mas o grupo xiita, aliado do Irã, não terá como lutar contra Israel em nome dos iranianos. "Seria inaceitável internamente no Líbano."

Já a paz de Israel com a Síria, prioridade de Obama, avançou pouco, segundo Gambill. A principal conquista até agora é o início da normalização das relações bilaterais. Para Salem, o problema nessa disputa é a desconfiança mútua. "Israel exige que os sírios rompam com o Irã, Hezbollah e Hamas antes de negociar a devolução das Colinas do Golã. Já os sírios só concordam em fazer isso depois de obterem de volta o território", diz Salem.

Obama sabe que seu legado militar depende do que ocorrerá no Iraque e no Afeganistão, mas seu legado diplomático será definido pela resolução dos conflitos no Oriente Médio.

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