Seu hambúrguer já foi pago

Quite a conta de quem vem atrás no drive-thru, escape do mundo de guerras e atentados

Kate Murphy*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

23 de outubro de 2013 | 02h02

Se você fizer um pedido no drive-thru do Chick-fil-A ao lado da Rodovia 46 em New Braunfels, Texas, não será incomum o motorista do carro da frente do seu pagar por sua refeição no tempo que você levou para gritar no intercomunicador e guiar até a retirada. "As pessoas que passaram na sua frente já pagaram", a caixa dirá enquanto entrega sua comida pela janela.

Confuso, você olha para o carro da frente - pode ser um caminhão-monstro enlameado, uma Mercedes ou uma minivan - que a essa altura já está entrando na estrada. A caixa solta uma risadinha, você pega a comida e, a menos que seu coração esteja irremediavelmente corrompido pelo cinismo e o sarcasmo, se sentirá tocado.

Você poderia debitar o gesto à hospitalidade sulina ou ao encanto de cidades pequenas. Mas é igualmente provável que o carro precedente pague a sua conta num drive-thru do Dunkin' Donuts em Detroit ou um drive-thru do McDonald's em Fargo, Dakota do Norte.

A generosidade em drive-thru está ocorrendo em todos os Estados Unidos e em partes do Canadá, às vezes resultando em cadeias contínuas de centenas de carros pagando a conta das pessoas que vem atrás deles. "Nós realmente não sabemos por que isso está acontecendo, mas se eu fosse arriscar, diria que há muita coisa ocorrendo no país que as pessoas acham desanimadoras", disse Mark Moraitakis, diretor de hospitalidade do Chick-fil-A, que tem base em Atlanta. "Pagar adiantado é uma maneira de se contrapor a isso."

Embora confuso no contexto de pagar pelo carro de trás do seu num drive-thru, "pagar adiantado" significa pagar uma bondade sendo amigável com um terceiro, não a pessoa que foi bondosa com você. A expressão se popularizou com o romance best-seller Pay It Forward, de Catherine Hyde Ryan, que foi publicado em 1999 e rapidamente adaptado para um filme (A Corrente do Bem) com Kevin Spacey e Helen Hunt. O protagonista faz três boas ações e pede que os beneficiários façam três boas ações, e assim por diante.

Pagar pelo que vem atrás em um drive-thru pode ter ocorrido uma ou duas vezes por ano uma década atrás, agora os operadores de fast-food dizem que a coisa pode acontecer várias vezes por dia. "Esse é um exemplo de bondade que se tornou viral", disse Ryan, que desde a publicação de Pay It Forward se tornou uma espécie de câmara de compensações de atos aleatórios de bondade. "As pessoas me trazem suas histórias de pagamento adiantado, e eu tenho ouvido um bocado sobre o fenômeno ultimamente."

O maior surto de generosidade em drive-thru talvez tenha ocorrido em dezembro passado numa Tim Hortons em Winnipeg, Manitoba, quando 228 carros consecutivos pagaram pelos que vinham atrás. Uma série de 67 carros foi registrada em abril num Chick-fil-A em Houston. E depois uma loja Heav'nly Donuts em Amesbury, Massachusetts, teve uma sequência de boa vontade de 55 carros em julho.

Incidentes de pagamento adiantado em série envolvendo entre 4 e 24 carros foram reportados em locais da Wendy's , McDonald's, Starbucks, Del Taco, Taco Bell, KFC e Dunkin' Donuts em Maryland, Flórida, Califórnia, Texas. Louisiana, Pensilvânia, Oklahoma, Geórgia, Alabama, Dakota do Norte, Michigan, Carolina do Norte e Washington.

Mais tipicamente, porém, trata-se de um cliente agindo sozinho e talvez rotineiramente. "Temos uma senhora que sempre paga pelo carro de trás no drive-thru, todos os dias", disse Aaron Quinton, coproprietário do Old School Bagel Cafe, em Tulsa, Oklahoma. "Eu aponto para a pessoa de trás e ela simplesmente concorda com um aceno de cabeça." O anonimato do drive-thru torna especialmente fácil pagar adiantado porque evita qualquer inconveniência e suspeita de intenções. O pagador vai embora antes que o próximo carro encoste e descubra um presente que é impossível recusar.

"Se você pagasse para alguém dentro de um restaurante, eles o veriam", diz Jessica Kelishes, uma representante de marketing de uma distribuidora de autopeças, que aderiu à mania em drive-thrus do Del Taco, McDonald's e Starbucks em Banning, Califórnia. "Eu faço mais por bondade do que por reconhecimento." Kelishes disse que sua generosidade vinha de se sentir abençoada e querer partilhar sua boa fortuna. Mas outros disseram às caixas de drive-thrus que queriam pagar adiantado em gratidão por motoristas que deram lugar na fila para eles ou após notar, pelo retrovisor, uma mulher chorando à direção, e querer fazê-la sorrir. Sobreviventes de câncer o fizeram por apreço à vida, e pais novos para celebrar a chegada do seu bebê.

Mais frequentemente, porém, há um desejo expresso de fazer algo de bom numa época em que tanta coisa no mundo parece desanimadoramente má. É um puro contraste, e talvez uma reação, aos relatos aparentemente infatigáveis de descortesia nos noticiários - políticos paralisando o governo, NSA espionando, suicídios de adolescentes resultantes de intimidações pela internet, mortandade cruel em um shopping no Quênia, ataques com gás na Síria.

"Trata-se de dar, de deixar que as pessoas vejam que nem todo o mundo é mau, e que há pessoas boas por aí e talvez nós possamos mudar as coisas", disse Connie Herring, uma técnica em óptica em St. Pauls, Carolina do Norte, que paga a conta de alguém em drive-thrus pelo menos uma vez por semana. Sua generosidade tem limites. "Não faço isso no Starbucks porque fiz lá certa vez e aquela vez custou US$ 12", disse ela. "Não se pode pagar adiantado quando se está quebrado."

*Kate Murphy é jornalista.

 TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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