AFP/KCNA
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Seul acelera plano de unificação frente à escalada de tensão com Kim Jong-un

Governo da Coreia do Sul prepara fundo de US$ 500 bi para reerguer o Norte caso consiga controlar a Península, mas enfrenta resistência da população mais jovem, que enxerga custos elevados demais na ideia de reconstruir economia à beira do colapso

Felipe Corazza, enviado especial a Seul, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2014 | 16h55

SEUL - O ano de 2014 sepultou a ideia de que o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, pudesse ser um reformista que daria um rumo mais pacífico à nação. O período foi marcado por uma escalada da tensão entre Pyongyang, Seul e Washington, culminando com a acusação de que hackers norte-coreanos teriam realizado um ciberataque contra o estúdio que produziu, nos EUA, uma comédia sobre o ditador que substituiu o pai, Kim Jong-il, morto em 2011. 

Reagindo ao que classificou como “sinais controversos” do regime do Norte, a Coreia do Sul intensificou os esforços para reunificar a Península - tecnicamente em guerra desde 1950. No início do mês, o ministro da Unificação sul-coreano, Ryoo Kihl-jae, foi aos EUA para conversas sobre a situação com a subsecretária de Estado americana, Wendy Sherman. 

Em novembro, Seul anunciou a criação de um fundo de US$ 500 bilhões para “preparar a unificação”. A quantia mostra que a presidente Park Geun-hye está disposta a enfrentar outra resistência ao plano além da oferecida por Pyongyang: a dos jovens sul-coreanos. 

Pesquisas de opinião vêm mostrando nos últimos anos quedas constantes na aprovação das gerações mais novas na Coreia do Sul a uma reunificação. O principal motivo seria o peso econômico que viria de uma reconstrução da economia da Coreia do Norte, que vem se deteriorando desde que o país perdeu apoio da União Soviética.

Um levantamento feito pelo grupo Asan mostra apoio de apenas 9% dos sul-coreanos na faixa etária dos 20 anos à unificação. O governo afirma que tem números menos pessimistas. 

Ainda assim, para tentar convencer os jovens de que a união das duas Coreias é vantajosa para o Sul, o governo criou em julho o Comitê de Preparação da Unificação, presidido pela própria Park e subordinado ao Ministério da Unificação. A tarefa do Comitê é “propor ações específicas para promover a unificação pacífica”. Na prática, o grupo, composto por autoridades e pesquisadores, formula ações de educação básica e marketing para tentar atrair novas gerações.

Entre as formas escolhidas, estão a música e os vídeos em tom emocional. Uma “boy band” foi recrutada pelo Comitê para gravar uma música e um videoclipe a favor da unificação. Além disso, um dos cantores mais famosos do país, Lee Seung-chul, foi convencido a militar pela causa. Com canções gravadas a favor da junção dos dois países, Lee chegou a gravar com um coral de dissidentes norte-coreanos nas ilhas Dokdo, área disputada pelo Japão - provocando a ira das autoridades de Tóquio. 

Para crianças, o ministério preparou um vídeo com filhotes de cães de duas raças tradicionais do país - a Jingdo, originária do Sul, e a Pungsan, do Norte. Os filmes são exibidos em aulas de “educação para a unificação”, idealizadas pelo Comitê.

Exemplo da geração que as campanhas do governo pretendem atingir, a estudante universitária Kim Ye-won, de 22 anos, é contra a unificação. “Quando era mais nova, era a favor. Depois, pensei na realidade, no custo que isso terá para a economia dos sul-coreanos”, afirmou ao Estado. A estudante é exemplo da pouca eficácia das tentativas feitas por músicos como Lee. Kim conhece a música do astro pop, mas nunca escutou as canções pela unificação.

A cifra de US$ 500 bilhões anunciada pelo governo pode ser considerada otimista. O Ministério de Relações Exteriores da Coreia do Sul não oferece um número tão preciso, mas um de seus diretores afirmou à reportagem ter conhecimento de estimativas que variam de muito menos (US$ 70 bilhões) a vultosos US$ 3 trilhões.

Aos 26 anos, o analista de tecnologia da informação Kim Tae-gon acha que a unificação precisa ocorrer em algum momento por razões humanitárias. “Há famílias separadas que sofrem, que não podem se ver”, afirmou. No entanto, o jovem não vê possibilidade de solução enquanto o país vizinho for dominado pela família Kim.

A visão é semelhante à de Choi Yoo-jin, que conseguiu fugir da Coreia do Norte em 2011, passou pela China e vive desde o ano passado em Seul. Ela não crê em uma saída fácil ou rápida para o regime. Tendo passado dois meses em um campo de trabalhos forçados no Norte, Choi é pessimista quanto à popularidade da ideia de unificação entre os norte-coreanos. “Pensamos em como nos alimentar. Não temos tempo de nos preocupar com o governo”, afirmou.

*O repórter viajou a convite do governo sul-coreano

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