Seul cancela viagem de ex-presidente à Coréia do Norte

A Coréia do Sul cancelou nesta quarta-feira a viagem do ex-presidente e prêmio Nobel da paz Kim Dae-jung à Coréia do Norte por causa da crescente tensão em torno do possível teste de um míssil intercontinental por Pyongyang.Uma mensagem de advertência, enviada na quarta-feira passada por Seul a Pyongyang, também reflete a tensão do momento. Na nota, a Coréia do Sul diz que poderia interromper o envio de arroz e adubos à Coréia do Norte caso ocorra o teste do míssil de longo alcance, cujos preparativos para lançamento parecem já estar concluídos.Segundo a imprensa sul-coreana, a crise põe em xeque os avanços conseguidos no último ano nas relações entre as duas Coréias, além de prejudicar as conversas multilaterais sobre o programa de armas nucleares norte-coreano.A viagem de Kim Dae-jung tinha por objetivo retomar as negociações nucleares, interrompidas desde novembro. No entanto, o clima ruim na península coreana não favorece as conversas. Kim deveria visitar o país vizinho entre os dias 27 e 30 de junho, sua segunda viagem ao país comunista.Em junho de 2000, Kim Dae-jung, então presidente sul-coreano, realizou em Pyongyang uma reunião com o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il. O encontro permitiu a abertura de diálogo entre os dois países, inimigos desde a Guerra da Coréia, entre 1950 e 1953.Se o míssil for lançado, este será o primeiro teste da Coréia do Norte com um projétil com essas características desde 1998, quando o país disparou um Taepodong-1, de médio alcance, que sobrevoou o Japão e caiu no mar.A tensão criada na época levou a Coréia do Norte a assinar em 1999 um documento que previa a suspensão de testes desse tipo de arma.ImpasseEmbora o lançamento possa ser interpretado como uma violação à suspensão, a Coréia do Norte afirmou na terça-feira que tem "todo o direito" de realizar este tipo de teste.Os Estados Unidos e o Japão disseram que levarão o caso ao Conselho de Segurança da ONU para a imposição de sanções econômicas à Coréia do Norte.Fontes do Departamento de Defesa dos Estados Unidos foram além e afirmaram que o Pentágono considera a possibilidade de abater o míssil norte-coreano em vôo.Os especialistas acham que o Taepodong-2 pode ter um raio de ação entre 3.500 e 6.700 km, o que significa que o míssil poderia alcançar o território americano.No último fim de semana, o serviço secreto americano alertou que o míssil já tinha sido abastecido com combustível e estava pronto para ser disparado.Hoje foi a vez da Coréia do Sul abordar seu vizinho com firmeza e ameaçar a suspensão de sua assistência econômica e humanitária, sem a qual o regime comunista teria poucas probabilidades de se manter.UnificaçãoO ministro da Unificação sul-coreano, Lee Jong-seok, disse que o lançamento do míssil colocaria em perigo a continuidade dos projetos de assistência, exceto aqueles que já estão em andamento, como o da zona franca industrial norte-coreana de Kaesong.Pyongyang pediu meio milhão de toneladas de arroz para este ano na última reunião interministerial das duas Coréias, realizada em abril. No início do ano, Seul enviou 150.000 toneladas de fertilizantes e está prepara outras 200.000 para entrega.Apesar da advertência, Lee deixou claro que, mesmo que a Coréia do Norte lance o míssil, Seul não interromperá seus contatos com Pyongyang.O Governo sul-coreano acha que é mais razoável lidar com uma Coréia do Norte que se orgulha de seu poderio militar do que com um país isolado e sancionado internacionalmente, capaz de reações imprevisíveis - ainda mais com posse de armas atômicas.

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