Seul estuda repor armas dos EUA na fronteira

Diante de evolução do programa atômico da Coreia do Norte, Sul considera reinstalar equipamento nuclear retirado nos anos 90

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

A Coreia do Sul está considerando reinstalar as ogivas nucleares dos Estados Unidos, retiradas de seu território no início dos anos 90, após a revelação de um surpreendente potencial atômico alcançado pela Coreia do Norte.

Ontem, no Congresso sul-coreano, o ministro da Defesa Kim Tae-young admitiu a hipótese e informou que a questão será discutida com os americanos na próxima reunião, no próximo mês, do Comitê de Políticas de Extensão da Dissuasão, grupo militar bilateral voltado para a questão nuclear.

"O governo vai considerar o que o senhor disse", afirmou Kim, ao ser questionado por um parlamentar sobre a reinstalação das ogivas e outros artefatos nucleares como meio de dissuasão ou de resposta a um ataque. As Coreias do Norte e do Sul entraram em guerra em 1950. Um cessar-fogo encerrou os combates em 1953, mas um acordo de paz não foi assinado até hoje.

Na prática, a instalação das ogivas reviverá o temor de uma tragédia nuclear na Península Coreana, vivida até o início dos anos 90. Também poderia alimentar temores e suspeitas em parceiros com os quais os EUA pretendem manter uma agenda mais construtiva em termos de segurança, como China e Rússia.

Na semana passada, o ex-diretor do laboratório nuclear americano de Los Alamos Siegfried Hecker - atualmente professor da Universidade Harvard - disse que há "centenas e centenas" de centrífugas que foram instaladas em período recorde na Coreia do Norte e são operadas de uma "ultramoderna sala de controle", conforme entrevista ao New York Times. O cientista, convidado pelo governo norte-coreano para visitar suas instalações nucleares, colheu a informação oficial de que o país já colocou em operação 2 mil centrífugas, fundamentais no processo de enriquecimento de urânio.

As revelações surpreenderam autoridades militares dos EUA, da Coreia do Sul e do Japão, tanto pelo aspecto da sofisticação das usinas nucleares norte-coreanas quanto pelo fato de as centrífugas terem sido instaladas em curto período de tempo. Hecker também sugere ter havido transferência de equipamentos e de tecnologia sensível pela China, prática considerada como proliferação nuclear.

Em dezembro, além das conversas com as autoridades militares americanas, o ministro da Defesa sul-coreano deverá tratar da nova ameaça com seu colega japonês, Toshimi Kitazawa, segundo o jornal Yomiuri. Uma das propostas em estudo seria a elaboração de um pacto bilateral para a troca de segredos militares. Esses dois países - alvos imediatos de Pyongyang - têm acordos similares com os EUA.

PARA LEMBRAR

Os EUA mantiveram ogivas nucleares na Coreia do Sul por 33 anos. As primeiras foram instaladas em 1958, cinco anos após o fim dos combates com a Coreia do Norte. Os EUA retiraram as ogivas em dezembro de 1991 da Coreia do Sul e de outros países, como parte de uma iniciativa de desarmamento do governo de George H. Bush.

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