EFE/EPA
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Seus mísseis provocaram poucos danos, mas o Irã possui armas mais potentes

Membros do Exército e dos serviços de inteligência dos Estados Unidos ficaram espantados com a precisão, escala e a ousadia do que concluíram depois ser um ataque iraniano.

David D. Kirkpatrick e Ronen Bergman, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2020 | 13h54

Há quatro meses, um enxame de drones armados, voando em baixa altitude, e mísseis de cruzeiro, atingiram a plataforma central do setor petrolífero saudita, pegando Washington de surpresa e temporariamente reduzindo 5% do suprimento de petróleo mundial. Praticamente nenhum país da região - Israel talvez seja uma exceção - conseguiria se defender contra aquela investida.

No ataque iraniano contra bases militares dos Estados Unidos no Iraque - o único ataque direto contra os Estados Unidos ou seus aliados, reivindicado pelo Irã desde a tomada da embaixada americana em 1979 - foram utilizados mísseis balísticos, contudo os danos infligidos foram poucos.

Mas com as tensões entre Estados Unidos e Irã no seu pior nível em quatro décadas, o inesperado sucesso do ataque, em setembro, contra as plataformas de petróleo sauditas, é uma lembrança de que Teerã tem uma variedade de armas ocultas em seu arsenal que podem constituir ameaças muito maiores no caso de uma escalada das hostilidades.

O Irã negou ser responsável pelo ataque às plataformas de petróleo sauditas. Mas autoridades americanas concluíram que o país estava implicado no ataque, com os drones e mísseis sido lançados do Irã ou do sul do Iraque.

O Exército convencional iraniano sofreu uma forte deterioração durante o relativo isolamento do país desde a Revolução Islâmica de 1979. Mas Teerã passou essas décadas desenvolvendo armas menos convencionais que hoje estão entre as mais potentes do mundo e idealmente são adequadas para travar uma guerra assimétrica com uma superpotência como os Estados Unidos.

O Irã controla o maior arsenal de mísseis balísticos e de cruzeiro da região, uma rede de grupos militantes aliados com 250 mil combatentes e equipes de hackers que as autoridades americanas colocam entre os mais perigosos.

O país também desenvolveu sofisticados drones armados e de vigilância. E como não possui uma marinha convencional robusta, buscou outros meios para bloquear o fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, com uma frota de lanchas e um estoque de minas submarinas.

“Sua capacidade ofensiva é drasticamente maior do que a defensiva”, disse Jack Watling, analista do Royal United Service Institute, centro de pesquisa sobre segurança, com sede em Londres. “A capacidade do Irã de infligir sérios danos torna muito alto o custo de uma guerra com o país”.

O ataque ineficaz da quarta-feira demonstrou o alcance dos mísseis balísticos do Irã - alguns viajaram mais de 950 quilômetros - mas também sua falta de precisão, com alguns atingindo áreas fora do alvo previsto. Alguns analistas sugeriram que o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, pode ter ordenado propositadamente um ataque simbólico, mas relativamente inofensivo, para mostrar aos cidadãos iranianos que foi dada uma resposta contundente, mas sem provocar uma guerra total com Washington.

“Khamenei tem de calibrar a resposta de modo que ela seja suficiente para o Irã não perder credibilidade, mas não tão violenta a ponto de o Irã perder o controle”, afirmou Karim Sadjadpour, estudioso do Irã no Carnegie Endowment for International Peace.

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Mas Teerã e seus aliados podem estar tramando formas menos manifestas de vingança pelo assassinato do comandante iraniano Qassim Suleimani. Segundo muitos analistas, o Irã e seus aliados militantes estão voltando ao seu estilo de ataques indiretos ou encobertos que não deixam evidências claras da responsabilidade iraniana.

As milícias patrocinadas pelo Irã no Iraque, que também perderam um dos seus líderes no ataque que matou Soleimani, disseram na quarta-feira que elas também se vingarão. Hassan Nasrallah, líder da milícia libanesa Hezbollah, também prometeu vingança.

O Irã sempre mostrou interesse em assassinatos, uma tática que combina com as promessas das autoridades do país de adotarem medidas “proporcionais” para vingar a morte de Soleimani. Vários especialistas em política iraniana dizem que matar uma autoridade americana, provavelmente na região, pode ser o “olho por olho, dente por dente” que Teerã está buscando.

“Seguramente eu não iria a muitos lugares públicos, porque o risco de ser atacado ou sequestrado é muito grande”, disse Sir John Jenkins, ex-embaixador britânico na Arábia Saudita.

O ataque em setembro contra a Arábia Saudita foi uma alternativa aterradora, em parte porque expôs um ponto vulnerável em muitos sistemas de mísseis de defesa. Muitos foram desenvolvidos para detectar e conter um grande número de drones voando em baixa altitude e os mísseis de cruzeiro. O ataque mostrou que a tecnologia do Irã estava mais avançada do que o esperado pelas agências de inteligência americanas.

“O ataque aos campos de petróleo na Arábia Saudita foi espantoso em termos da sua audácia”, afirmou em uma entrevista o general Kenneth F. McKenzie Jr, chefe do Comando Central do Pentágono.

Os mísseis de cruzeiro iranianos de maior alcance podem chegar a mais de 2.400 quilômetros de distância das fronteiras do país, chegando praticamente a qualquer parte do Golfo Pérsico. China, Rússia e Coreia do Norte forneceram ao Irã tecnologia e munições e o Irã produziu, internamente, drones comandados por controle remoto.

Até recentemente, porém, Teerã preferiu confiar na sua rede de militantes aliados na região, incluindo o Hezbollah libanês, um grupo de milícias iraquianas organizadas como Forças de Mobilização Popular, os Houthis no Iêmen e outros grupos na região. Alguns, como o Hezbollah ou as forças iraquianas, hoje são tão grandes, bem equipados e institucionalizados que parecem mais Exércitos profissionais do que milícias informais.

“É isto que amplia o poder do Irã para bem além das suas fronteiras”, afirmou Afshon Ostovar, conhecedor do Exército iraniano e que faz pós-graduação na Naval Postgraduate School em Monterey, Califórnia.

As esmagadoras sanções econômicas estabelecidas pelo governo Trump contra o Irã, no ano passado, abalaram a economia do país e reduziram sua capacidade de financiar seus aliados militantes. Mas segundo um estudo divulgado esta semana pelo Center for Strategic and International Affairs, o total de combatentes em toda a rede de milícias respaldadas pelo Irã continuou a crescer vigorosamente, de um número estimado em 150 mil para mais de 250 mil.

E apesar dos esforços dos Estados Unidos e Israel, o Irã continua a contrabandear mísseis de vários alcances e capacidades para seus aliados na Síria, Iraque, Líbano e Iêmen, de acordo com informações de membros da defesa americana e israelense.

O ciclo mais recente de ataques entre Estados Unidos e Irã começou com um foguete lançado pelos iranianos que matou um empreiteiro a serviço dos americanos no Iraque. Os Estados Unidos retaliaram com uma investida contra uma milícia apoiada pelo Irã, dando início a uma escalada do confronto.

Mas longe de parar com os ataques com foguetes, algumas milícias no Iraque afirmam que mesmo sem incentivo iraniano elas agora intensificarão suas investidas contra forças americanas para expulsá-las do país.

“Penso que o que está por vir é um período estrondoso do conflito” disse Ostovar.

Os ciberataques - com armas que podem causar graves danos com baixo custo e poucos rastros - podem ser a carta na manga do Irã. Especialistas em segurança cibernética e autoridades do governo já perceberam um aumento de atividade criminosa por parte de hackers e usuários da mídia social pró-iranianos que, acreditam, são presságio de ataques cibernéticos mais sérios de Teerã.

Um ataque iraniano aparentemente de pouca ressonância foi realizado com o objetivo de vingar a morte de Soleimani. Os hackers iranianos temporariamente invadiram o website do Federal Depository Library Program (um programa do governo dos Estados Unidos que disponibiliza gratuitamente as publicações do governo federal para o público) e substituíram seu conteúdo por um panegírico ao general.

“Invadido por hackers do grupo de segurança cibernética do Irã”, apareceu no website. “Esta é apenas uma pequena parte da capacidade cibernética do Irã”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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