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Sexo e a Casa Branca

A Constituição dos EUA não é explícita em garantir igualdade entre homens e mulheres

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2016 | 05h00

Enfim, a democrata Hillary Clinton entrou para a História dos EUA como a primeira mulher candidata oficial de um grande partido à Casa Branca – a pioneira na corrida presidencial foi Victoria Woodhull, em 1872, mas por uma legenda sem expressão e as mulheres nem sequer podiam votar. Esse direito foi conquistado somente em 1920. Um longo caminho foi percorrido desde então.

O republicano Donald Trump, seu concorrente, acusou-a de “dar a cartada do gênero”, ou seja, usar o fato de ser mulher para se beneficiar na corrida presidencial. Não sei se Trump sabe, mas 51% da população é de mulheres. Não era sem tempo que uma delas chegasse à corrida presidencial. Se um candidato pode tirar proveito do gênero é o próprio Trump. Ser homem tem sido historicamente um pré-requisito para a Casa Branca e outros cargos no governo.

Elas ocupam apenas 19,4% dos assentos no Congresso – menos da média mundial de 21,9%, o que coloca os EUA na 75.ª posição em um ranking global de representatividade feminina em governos federais, entre 189 países, segundo a Inter-Parliamentary Union, organização que acompanha parlamentos em todo o mundo. Apenas 10% dos cargos de governador, 12% das prefeituras das 100 maiores cidades americanas e 24% dos assentos nas casas legislativas estaduais são ocupados por mulheres. Elas são também minoria nos postos de trabalho públicos.

A Constituição americana não garante direitos iguais a homens e mulheres explicitamente. Desde 1923, ativistas tentam aprovar uma emenda, sem sucesso. É precisamente por isso que democratas e republicanos nunca tiveram uma candidata à Casa Branca até a última quarta-feira. Porque barreiras ainda impedem a maioria das mulheres com ambições políticas de trilhar uma carreira relevante, que as permita exercer sua competência e demonstrá-la aos eleitores.

O marco legal seria importante para garantir mais oportunidades a elas e uma sociedade mais representativa. Se continuar progredindo na taxa atual, levará 500 anos para que as mulheres sejam igualmente representadas no Congresso americano, calcula o site GovFem, que defende maior representatividade feminina na política.

Hillary é uma exceção à regra. Formada em direito pela Universidade de Yale, onde conheceu Bill Clinton, seu colega de classe, ela trabalhou com diversos políticos, integrou a equipe que investigou o escândalo de Watergate como consultora jurídica, trabalhou na campanha de Jimmy Carter e foi consultora legal de seu gabinete antes de se tornar primeira-dama quando Bill Clinton foi eleito governador do Arkansas e, em seguida, presidente dos EUA. Depois disso, foi eleita senadora, cargo que ocupou entre 2001 e 2009, e secretária de Estado até 2013, mas continua sendo vista à sombra do marido. 

Pesquisas mostram que muitos americanos ainda não se sentem confortáveis em votar em uma mulher. O escândalo político sexual envolvendo a traição do marido ainda paira como fantasma sobre sua campanha.

Nas séries de TV, que são uma febre nos EUA, as mulheres ainda são retratadas como as quatro personagens de Sex and the City: independentes e bem-sucedidas profissionalmente. Ainda assim, só falam em homens e sapatos. Ao longo da maior parte dos seis anos em que a série esteve no ar, as personagens se mantiveram solteiras e as mulheres casadas e com filhos (como Hillary Clinton) eram retratadas como alienadas, descontroladas e incapazes de ter uma carreira. Em Breaking Bad, mais recente, a personagem feminina é uma dona de casa frágil, ingênua, neurótica, que acaba virando cúmplice do marido para salvar a família. A personagem é mais complexa do que este espaço permitiria descrever e evolui ao longo das temporadas, mas nunca assume um papel de protagonista.

Mesmo House of Cards que traz uma personagem feminina forte, a primeira-dama Claire Underwood (um claro paralelo com Hillary Clinton) tenta seguir uma carreira independente, mas acaba, ao menos até agora, à sombra do marido. A série expõe as barreiras e preconceitos que uma mulher enfrenta na política. Ao mesmo tempo, reforça estereótipos como o de que toda mulher bem sucedida não tem escrúpulos, usa a sedução sexual para chegar onde quer e é capaz de qualquer coisa para satisfazer sua ambição, como puxar o tapete de outras mulheres.

Hillary atravessou uma série de escândalos políticos. Ser mulher não garante uma boa administração, nem mesmo igualdade – Paquistão, Índia, Bangladesh tiveram mulheres como líderes antes dos EUA. Mas é uma boa notícia que uma delas tenha chance de chegar ao topo. Na base, elas ainda têm um longo caminho a percorrer.

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