Crisp County Sheriff's Office via REUTERS
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Sexo, pornografia e culpa: a vida do suspeito da chacina contra asiáticos na Georgia

Robert Aaron Long era cliente de duas das casas de massagem onde ocorreram as chacinas em Atlanta; ele já havia se internado em uma clínica de reabilitação por um autodescrito 'vício sexual'

Richard Fausset, Nicholas Bogel-Burroughs, Ruth Graham e Jack Healy, The New York Times

19 de março de 2021 | 12h00

ATLANTA - Ele se internou em uma clínica de reabilitação por um autodescrito "vício sexual". Ele estava tão decidido a evitar a pornografia que bloqueou sites em seu computador e só usou um celular de flip. Ele disse a um colega de quarto que estava preocupado de cair "fora da graça de Deus".

Meses antes de Robert Aaron Long ser acusado de realizar chacinas em três casas de massagem que horrorizou a nação e gerou protestos furiosos sobre a violência antiasiática, o suspeito de 21 anos, que cresceu em uma igreja batista conservadora, parecia obcecado na culpa e na luxúria.

Enquanto os investigadores apuravam se racismo e sexismo motivaram os ataques, pessoas que conheciam Long ofereceram novos detalhes sobre uma perigosa mistura de ódio e frustração sexual e o que um ex-colega de quarto descreveu como "mania religiosa" que marcou a vida do acusado nos anos anteriores ao tiroteio.

Long, cuja igreja proibia estritamente o sexo fora do casamento, ficou perturbado com suas tentativas fracassadas de conter seus impulsos sexuais, disse Tyler Bayless, um ex-colega de quarto que morou com Long em uma casa de recuperação perto de Atlanta por cerca de cinco meses, começando em Agosto de 2019.

Quase uma vez por mês, Long admitia ter tido outra recaída ao visitar uma casa de massagens para fazer sexo, disse Bayless, e certa vez pediu a Bayless para tirar seu computador dele.

A polícia de Atlanta disse na quinta-feira, 18, que Long era cliente de dois spas na cidade, alvo dos ataques que mataram oito pessoas ao todo, incluindo seis mulheres de ascendência asiática. Eles não especificaram se ele havia procurado algo mais do que uma massagem nos dois estabelecimentos.

Quando Long foi preso, ele disse que estava a caminho da Flórida para realizar outro ataque a uma empresa ligada à indústria pornográfica. Ele foi indiciado por oito acusações de homicídio.

Não está claro o que levou Long a procurar tratamento para o vício sexual na casa de recuperação, onde outros estavam trabalhando com o vício de drogas e álcool. Bayless, o ex-colega de quarto, disse que Long sempre discutia suas visitas a empresas de massagens para sexo no contexto de seu relacionamento com Deus e seus pais.

No início de 2020, Long mudou-se da casa de recuperação para um tratamento mais intensivo no HopeQuest, um centro cristão para pessoas em recuperação, e os dois homens perderam o contato, disse Bayless.

"Acho que ele sentiu que não podia confiar nele mesmo sozinho", acrescentou Bayless, referindo-se à incapacidade de Long de parar de visitar os spas.

Nesta sexta-feira, o presidente Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris se reúnem com líderes asiático-americanos em Atlanta para discutir os ataques e ameaças contra a comunidade. Em uma audiência extraordinária em Washington, vários legisladores ásio-americanos compartilharam histórias profundamente pessoais de intolerância e advertiram que a violência havia chegado a um "ponto de crise".

Cinco legisladores ásio-americanos na Geórgia também realizaram uma emocionante entrevista coletiva em que denunciaram a violência, bem como caracterizaram que as vítimas eram vistas pelos agressores como "um problema que precisava ser eliminado". Policiais disseram que o suspeito disse aos detetives que realizou o ataque como uma forma de se livrar da tentação.

A deputada estadual Bee Nguyen, democrata de Atlanta, disse que os assassinatos destacaram "a vulnerabilidade, a invisibilidade e o isolamento das mulheres asiáticas da classe trabalhadora em nosso país. E sabemos que a vulnerabilidade as torna alvos".

Ativistas, líderes da comunidade asiático-americana e especialistas em violência e gênero disseram que o tiroteio revelou como as forças entrelaçadas de sexismo e racismo estavam alimentando um aumento da violência e preconceito antiasiático. Alguns pediram às autoridades que julgassem os tiroteios como um crime de ódio. Na quinta-feira, o subchefe Charles Hampton Jr., do Departamento de Polícia de Atlanta, disse que os investigadores não haviam tomado nenhuma decisão neste sentido.

"Nossa investigação está examinando tudo", disse o chefe Hampton. "Nada está fora de questão."

Crescendo nos subúrbios culturalmente conservadores do condado de Cherokee, ao norte de Atlanta, Long "levava sua Bíblia para a escola todos os dias", disse Darin Peppers, de 51 anos, diretor municipal de First Priority of Metro Atlanta, um grupo evangélico que atua em escolas. Ele tocava percussão durante as reuniões matinais de louvor de seu grupo de jovens cristãos na Sequoyah High School.

De acordo com um anuário escolar, Long liderava uma reunião semanal da Fellowship of Christian Athletes. "Eu realmente sinto que Deus está querendo que eu seja um líder na igreja, então eu senti que esta seria uma oportunidade realmente boa para exercitar alguns desses princípios", o anuário citou-o dizendo, "e também apenas estender a mão para o nosso campus com o evangelho."

Nos últimos anos, o Long e sua família eram membros ativos na Crabapple First Baptist Church em Milton, Geórgia. Ele foi batizado lá quando adulto em 2018, de acordo com uma postagem da igreja no Facebook - que foi excluída recentemente.

A igreja é afiliada à Convenção Batista do Sul e se coloca em uma lista de igrejas que são "amigáveis" com a missão do Founders Ministries, um grupo dentro da denominação que tem criticado o que caracteriza como uma tendência à esquerda dentro do universo evangélico.

O estatuto da Crabapple inclui uma longa passagem sobre casamento e sexualidade que condena "adultério, fornicação, homossexualidade, conduta bissexual, bestialidade, incesto, poligamia, pedofilia, pornografia ou qualquer tentativa de mudar o sexo".

O pastor líder da igreja, Jerry Dockery, pregou um sermão sobre papéis de gênero em setembro, com base em uma passagem bíblica em Timóteo que instrui as mulheres a se vestir com recato e a "aprender em silêncio e submissão total".

Long frequentou o campus da University of North Georgia em Cumming do outono de 2017 até o outono de 2018, disse uma porta-voz, mas ele não obteve nenhum diploma e não se matriculou depois disso. Em janeiro de 2019, seus pais contaram à polícia que ele tinha visitado uma namorada em Chattanooga, Tennessee, e lhes enviou uma mensagem de texto dizendo que não voltaria e que queria um "recomeço", mas a polícia disse não ter encontrado evidências que o caracterizasse como uma pessoa desaparecida.

Ele disse a seus colegas de quarto que seus pais sabiam de seu vício e também sugeriu que ele havia perdido uma namorada porque não parava de visitar as casas de massagem.

Certa vez, depois que Long teve uma recaída no outono de 2019, Bayless lembrou que Long o chamou em seu quarto e lhe pediu que pegasse uma faca, dizendo que temia se machucar.

"Nunca vou me esquecer dele olhando para mim e dizendo: 'Estou perdendo a graça de Deus'", disse Bayless.

Bayless, 35, disse que não queria justificar as mortes de forma alguma, mas disse que estava descrevendo suas lembranças de Long para dar às pessoas mais clareza sobre o que ele descreveu como a "mania religiosa" de Long.

HopeQuest, o ministério de recuperação cristão ao qual Long participou, não respondeu aos pedidos de comentários na quinta-feira. Não ficou claro em qual de seus campi ele buscou tratamento. Um de seus locais fica em um terreno arborizado em Acworth, a menos de 800 metros de carro de Young's Asian Massage, o local do primeiro tiroteio.

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