Sexta-feira reacende protestos pela região

Iraquianos, iemenitas, bahreinitas e egípcios vão às ruas solidarizar-se com oposição da Líbia e exigir mudanças em casa

Sharon Otterman e J. David Goodman, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas de cidades espalhadas por todo o Oriente Médio para protestar contra a irresponsabilidade de seus líderes e expressar sua solidariedade ao levante na Líbia que o coronel Muamar Kadafi tenta suprimir por meio da força.

Assim como na Líbia, manifestações no Iraque também enveredaram pelo rumo da violência, com forças de segurança disparando contra multidões em Bagdá, Mossul, Ramadi e na Província de Salahuddin (mais informações nesta página).

As manifestações realizadas em outros países - Bahrein, Iêmen e Egito - foram quase todas pacíficas.

No Bahrein, protestos pela democracia de proporções inéditas no país bloquearam ruas no centro da capital e também os acessos a Manama. Foi a segunda vez esta semana que a multidão se reuniu na Praça Pérola, no centro da cidade, mas o governo novamente permitiu que a manifestação ocorresse.

Forças do governo promoveram uma brutal repressão na semana passada, matando ao menos sete manifestantes, mas recuaram diante de intensa pressão americana. Desde então, o país parece estar vivendo um impasse entre a vontade dos manifestantes, de maioria xiita, e a monarquia sunita do país. Os xiitas são maioria no Bahrein, país aliado aos EUA, e dizem que há muito tempo são alvo de discriminação por parte da elite sunita que governa o emirado.

Numa reviravolta surpreendente, foram os líderes religiosos xiitas do Bahrein que pediram ao povo que fosse às ruas na sexta feira, e não a oposição política. Apesar de alguns dos gritos de guerra e símbolos evocados na sexta feira apresentarem um verniz religioso, as exigências dos manifestantes permaneceram as mesmas - enfatizando um apelo não sectário pela democracia e a queda do governo.

"Somos vencedores, e a vitória emana de Deus", entoaram os manifestantes em Manama.

Alguns dos manifestantes traziam bandeiras negras - um símbolo de luto entre os xiitas -, mas estas apareceram em meio a um verdadeiro mar de bandeiras brancas e vermelhas, as cores do Bahrein.

A multidão se estendia por mais de três quilômetros até o shopping de Bahrein, a leste da Praça Pérola, e por cerca de mais 3km até o Complexo Médico de Salmaniya, ao sudoeste, que tem atendido os manifestantes feridos e servido como ponto de reunião para os manifestantes.

No Iraque, a violência ocorreu depois que os manifestantes atenderam à convocação de um "dia de fúria", apesar das tentativas do governo de impedir que as pessoas fossem às ruas. Os agentes de segurança em Bagdá proibiram a presença de carros nas ruas até segunda ordem.

"Sexta dos Mártires". No Iêmen, mais de 100 mil pessoas foram às ruas na cidade de Taiz, um dos pontos de maior concentração dos manifestantes, depois que o ameado presidente do país, Ali Abdullah Saleh, prometeu na quarta feira que os protestos não seriam reprimidos. Nas últimas semanas os manifestantes enfrentaram episódios esporádicos de violência nas mãos de forças de segurança e grupos leais ao governo.

O protesto em Taiz foi chamado de "sexta-feira dos mártires", em homenagem aos dois manifestantes que morreram na semana passada atingidos por uma granada.

Enquanto as semanas de protestos na capital, Sanaa, têm sido tensas, com repetidos enfrentamentos entre forças contrárias e favoráveis ao governo, a manifestação em Taiz, centro intelectual do país, apresentaram na sexta feira um clima mais marcado pela esperança e pela alegria. Junto com os jovens que organizaram as manifestações por meio do Facebook, moradores mais velhos do interior rumaram para a região da cidade batizada pelos manifestantes de Praça da Liberdade.

"Não há partidos, nossa revolução pertence aos jovens", lia-se num cartaz. Emulando a Praça Tahrir, no Egito, no centro da zona de protestos em Taiz foram erguidas cerca de 100 barracas, onde as pessoas passam a noite há mais de uma semana.

Um clérigo fez um discurso matinal, lembrando às pessoas que a revolução não era contra uma única pessoa, e sim contra a própria opressão. Quando as preces do meio-dia chegaram ao fim, o povo entoou o ensurdecedor grito de guerra que se torna cada vez mais conhecido em todo o mundo árabe: "O povo quer derrubar o regime".

Ao mesmo tempo, na capital, dezenas de milhares de pessoas rumavam para uma praça perto dos portões principais da Universidade de Sanaa em meio à ostensiva presença das forças de segurança, de acordo com reportagem da Associated Press.

As manifestações se tornaram violentas na cidade portuária de Áden, onde forças de segurança enfrentaram milhares de manifestantes em vários distritos da cidade sublevada, segundo a Associated Press. Em comparação aos protestos de Taiz e Sanaa, que exigiam a deposição de Saleh, as manifestações em Áden se concentraram na secessão e receberam uma resposta mais violenta por parte do governo.

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