Sharon entre dois fogos internos

Não tem sido uma semana fácil para Ariel Sharon.Tropas e tanques isralenses invadiram Ramallah, a principal cidade palestina na Cisjordânia, mas dois ministros de seu governo da ultranacionalista União Nacional renunciaram por considerarem que as ações do Exército não têm sido duras o suficiente.Na quarta-feira, Sharon teve um pesado embate verbal, pela razão oposta, com o ministro da Defesa Binyamin Ben-Eliezer, líder do moderado Partido Trabalhista, que se opunha à expansão da dimensão das operações militares de Israel antes da chegada nesta quinta-feira do mediador dos EUA Anthony Zinni.Ser pego no meio não é um estado natural para Sharon ? um falcão que fez duas carreiras, militar e política, defendendo duras ações contra os palestinos, incluindo a invasão israelense do Líbano em 1982 para expulsar forças da OLP.No belicista Partido Likud, de Sharon, existem ministros cujas visões não são muito diferentes daquelas da ultranacionalista União Nacional. Entretanto, a realidade parlamentar ? uma miríade de partidos e a falta de uma maioria clara tanto para ostrabalhistas quando para o Likud e seus aliados - o forçaram a formar uma ampla coalizão com representantes de todos os lados.As renúncias do ministro do Turismo, Benny Elon, e do ministro da Infra-Estrutura, Avigdor Lieberman, da União Nacional, foram efetivadas nesta quinta-feira - as primeiras defecções do governo Sharon desdeque ele foi formado em março do ano passado.Elon chegou a dizer na manhã de hoje que estava retirando sua carta de renúncia, mas então mudou de idéia novamente.A União Nacional exige que Israel expulse o líder palestino Yasser Arafat e derrube seu regime. Liberman várias vezes defendeu a retomada da Cisjordânia e Faixa de Gaza para eliminartodas as armas palestinas dos territórios.Liberman e Elon renunciaram devido à decisão de Sharon de suspender um cerco de três meses a Arafat que o confinava no seu quartel-general em Ramallah, Cisjordânia. Sharon enviou novamente tropas a Ramallah na terça-feira mas não mudou deopinião em relação a Arafat. Os ultranacionalistas acusaram Sharon de ter optado pelos moderados trabalhistas.Escrevendo no diário Haaretz, o analista político Gideon Samet disse que, ao permitir a renúncia da União Nacional, Sharon sinalizou estar aberto a negociações para acabar com o conflito com os palestinos, apesar da recente ofensiva em larga escala de Israel na Cisjordânia e Faixa de Gaza. "Neste caso", avaliou Samet, "a permanência do Partido Trabalhista no governo será fortificada".Mas a lua-de-mel terminou antes mesmo de começar. Numa tempestuosa reunião do gabinete de segurança de Sharon na quarta-feira, o primeiro-ministro e Ben-Eliezer tiveram uma acalorada discussão sobre a operação em Ramallah, segundo a mídia israelense.Ben-Eliezer ameaçou renunciar, e Sharon, com um murro na mesa, disse para ele ir em frente - a consequência seriam eleições antecipadas. Ben-Eliezer recuou.Uma eleição, ao que parece, é um pesadelo compartilhado por ambos e pode manter a estranha coalizão viva até a próxima eleição regular em 2003.Por décadas, o Partido Trabalhista baseou seu apelo eleitoral numa política de troca da maior parte da Cisjordânia e Faixa de Gaza pela paz com os palestinos. Entretanto, os palestinos não aceitaram uma oferta de um tal Estado feita pelo últimoprimeiro-ministro trabalhista, Ehud Barak. E a violência explodiu, envenenando as perspectivas de muitos israelenses de negociar com os palestinos e dizimando o apoio aos trabalhistas.Algumas pesquisas mostram que numa nova eleição o Partido Trabalhista conquistaria no máximo 15 das 120 cadeiras no Parlamento, contra as atuais 24. O Likud teria consideráveis ganhos, segundo a pesquisa.O problema de Sharon é pessoal. Esperando para derrubá-lo está o ex-premier Benjamin Netanyahu, que tem cutucado Sharon pela direita, ecoando as críticas da União Nacional. Se o governo de coalizão de Sharon cair, Netanyahu está preparado para apanharos pedaços.Portanto, por razões políticas puramente internas, a atual configuração do governo deve continuar, disse o analista político Hanan Crystal."A coalizão de Sharon com a União Nacional e o Partido Trabalhista não era algo natural", considerou ele. "A coalizão apenas com os trabalhistas é natural".

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