Sharon perde a compostura e é tirado do ar

Em uma decisão inédita, um juiz ordenou tirar do ar uma entrevista com o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, transmitida ao vivo por rádio e televisão na noite de ontem. Obrigado a lidar com denúncias de corrupção que poderão lhe custar o cargo, Sharon acusou, durante a entrevista, o oposicionista Partido Trabalhista de fazer calúnias. "Calado ao vivo", dizia a manchete de hoje do jornal Yediot Ahronot, comentando a iniciativa do juiz Mishael Cheshin, presidente da Comissão Central Eleitoral.As emissoras são proibidas de transmitir "propaganda eleitoral" no mês que antecede as eleições gerais de 28 de janeiro, fora dos blocos especiais previamente anunciados como anúncios de campanha. A entrevista de Sharon prosseguiu, mas sem cobertura ao vivo. O primeiro-misnitro está sendo investigado pelo suposto recebimento de um empréstimo de US$ 1,5 milhão concedido por um empresário estabelecido na África do Sul.Ao mesmo tempo, seu partido - o direitista Likud - é alvo de acusações de envolvimento com a máfia e venda de vagas e suborno em suas eleições internas. A série de escândalos fez com que o Likud escorregasse nas pesquisas de opinião. Sharon tem agora de lidar com um empate técnico, aumentando as chances de que o pacifista Amram Mitzna, do Partido Trabalhista, consiga formar o próximo governo israelense.Os colunistas aproveitaram seu espaço nos jornais de hoje para comentar a interrupção da entrevista de Sharon. "Sua entrevista coletiva de ontem será lembrada justamente pelo corte na transmissão", escreveu o comentarista político Nahum Barnea no Yediot. "Fechar o microfone de um primeiro-ministro pode ser considerado um fato histórico.?A lei sobre propaganda eleitoral data de uma época em que Israel tinha apenas uma emissora de tevê e duas de rádio, um contraste com relação aos dias de hoje, nos quais há uma ampla variedade de canais. Cheshin já havia anunciado que aplicaria a lei rigorosamente este ano, numa tentativa de fazer com que ela seja respeitada no futuro.No jornal Haaretz, que trouxe à tona o escândalo desta semana, o comentarista Yossi Verter disse que o discurso de Sharon trouxe poucas respostas às acusações feitas contra ele. "Ele faz uma campanha eleitoral sem vergonha, acusando a tudo e a todos, especialmente Mitzna e a imprensa", escreveu Verter. "Mas se esqueceu de fazer uma coisa: dar respostas."Na entrevista coletiva, Sharon negou ter conhecimento de que seus filhos teriam pedido dinheiro emprestado para cobrir financiamento de campanha obtido ilegalmente numa eleição anterior. Ele afirmou estar em posse de documentos que provam sua inocência e acusou os trabalhistas de instigarem escândalos por estarem atrás nas pesquisas.

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