Sharon podia ter feito a paz

Guerreiro implacável em ascensão, ex-premiê enterrado ontem fez concessões no poder

Ronen Bergan, The New York Times/O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2014 | 02h01

Para Ariel Sharon, cujo corpo foi enterrado ontem em sua fazenda no Negev, a política era como uma roda gigante. Mas ele não se contentaria em sentar, teria de fazer tudo para subir ao topo e ficar. Emanava vigor, autoridade, liderança e carisma. Seus briefings antes das missões eram precisos, claros e inequívocos; ele infundia em seus homens confiança e segurança. Costumava dar as ordens em tom despreocupado, às vezes cínico, com profundo senso de humor. E sempre combatia à frente de suas forças, expondo-se claramente ao perigo.

Quando era ainda um jovem oficial, de patente relativamente inferior, o premiê David Ben Gurion escreveu no diário referindo-se a ele: "Um jovem arguto, inovador; se conseguisse vencer a fraqueza de não falar a verdade nos relatórios, poderia ser um líder militar exemplar". E estava certo.

Em 1982, quando ministro da Defesa, Sharon mentiu para o primeiro-ministro Menachem Begin e para o gabinete, apresentando um plano que previa uma limitada incursão no Líbano, de duração reduzida, mas, na realidade, ordenou ao Exército que conquistasse uma grande parte do Líbano, esmagasse as forças da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e infligisse graves danos à presença síria. Isso aconteceu, mas a campanha foi um desastre político. Sharon se convencera de que, se modificasse o relato histórico para se apresentar positivamente, poderia subir.

As operações da unidade contraterrorista que comandava nunca reduziram a intensidade dos ataques contra Israel, mas Sharon modificou a maneira como foi mostrada para parecer que seus comandos tinham salvado o país.

Sharon esforçou-se para perpetuar o mito de que foi ele, no comando de uma divisão blindada, que evitou que Israel sofresse derrota em 1973. E ordenou que as gravações de suas mensagens de rádio fossem escondidas num local secreto. Além disso, ele brigou com sucesso com o Departamento de História do Exército israelense para impedir que divulgasse as provas do que ocorreu: que ele desobedecera muitas ordens, que sua divisão fora um elemento entre os vários nos contra-ataques bem-sucedidos pelo Canal de Suez, que ele ignorara os pedidos de assistência de outras tropas.

Nove anos mais tarde, Sharon nem sequer tentou pedir desculpas por seu menosprezo pela perda de vidas em sua trajetória ao topo. Ele ordenou que as forças que invadiram o Líbano "acabassem" com a área ao sul de Beirute, onde se localizavam os campos de refugiados palestinos e as bases da OLP. Uma revista israelense o retratou na capa como um viking cruel pisoteando o Líbano. Sharon não gostou da analogia, mas, como os vikings, estabeleceu como objetivo a destruição física do inimigo e, no caso, a eliminação do seu líder, Yasser Arafat. Sharon estava disposto a não parar e a envolver-se, com o Exército israelense, em crimes de guerra contra inúmeros civis. A complexa situação no Líbano e protestos públicos provocaram sua destituição do Ministério da Defesa.

A maioria dos israelenses acreditou que este seria o fim da carreira de Sharon. Mas ele continuou na roda gigante por mais alguns anos, como parlamentar pelo Likud e como membro do gabinete - até fevereiro de 2001, quando, como os israelenses pediam um líder forte que acabasse com a violência e o terrorismo da Segunda Intifada, derrotou o então premiê, Ehud Barak.

E então, Sharon mudou. Quando chegou ao topo, em meio a uma onda de ataques suicidas, foi o líder certo. Sharon entendeu que, sem o apoio dos EUA, não poderia conduzir a agressiva guerra que planejava.

Para conseguir o consentimento dos EUA, Sharon estava preparado para sacrificar o projeto ao qual dedicara anos: os assentamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Mais tarde, sua disposição a fazer concessões nessa questão foi decorrência da convicção de que, no fim, não haveria alternativa para Israel a não ser se retirar da maior parte dos territórios ocupados para estabelecimento de um Estado palestino independente. Se em 2006 Sharon não tivesse sofrido o derrame que provocou sua morte, muito provavelmente teria concluído um acordo de paz com os palestinos. E teria usado sua poderosa personalidade e irresistível carisma, bem como o afeto que o povo lhe dedicava, para forçar o movimento da direita favorável aos assentamentos, a aceitá-lo. Não tenho a menor dúvida de que Sharon salvaria Israel - principalmente de si mesmo.

*Ronen Bergman é jornalista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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