Sharon se desculpa por crítica aos EUA

O forte ataque de Ariel Sharon à política dos Estados Unidos - dizendo que Washington está entregando Israel para apaziguar os árabes - pode ter sido surpreendente por sua dureza, mas não foi totalmente inesperado. O líder israelense está frustrado pela aparente falta de disposição de sua superpotência aliada de alvejar grupos militantes antiisraelenses em sua campanha global contra o terrorismo. Sharon também se sentiu golpeado esta semana por declarações do EUA de apoio a um Estado palestino. O ministro israelense Tsipi Livni disse nesta sexta-feira que o endosso do presidente americano, George W. Bush, a um eventual Estado palestino foi visto por Israel como uma recompensa a ataques palestinos contra civis israelenses, tendo sido anunciado no mesmo dia de um mortal assalto palestino contra um assentamento judaico. "A mensagem que o mundo árabe está recebendo agora é que o terror compensa", disse Livni, que atua como porta-voz do governo. A administração Bush está tentando ganhar o apoio de Estados árabes e muçulmanos para um possível ataque militar contra militantes islâmicos suspeitos de terem executado os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington. Como parte de sua campanha, a aliança liderada pelos EUA tem se aproximado de vários Estados árabes radicais, como a Síria, um país considerado por Washington como patrocinador do terrorismo. Israel tem protestado veementemente, mas sem sucesso. Israel também está preocupado pelo fato de grupos militantes antiisraelenses, como o libanês Hezbollah e os palestinos Hamas e Jihad Islâmica, não terem sido apontados como alvos de uma emergente coalizão antiterrorista. Sharon irritou Washington na quinta-feira ao fazer um paralelo entre a política dos EUA para o Oriente Médio com a da França e Grã-Bretanha em 1938, quando os dois países permitiram que a Alemanha nazista tomasse uma parte da Checoslováquia em troca de uma promessa de paz que foi rapidamente quebrada. "Não tentem aplacar os árabes às custas de Israel. Não somos a Checoslováquia", disse Sharon numa entrevista coletiva. O parlamentar da oposição Ran Cohen afirmou que Sharon estava sendo irracional. "Israel, em termos de Oriente Médio, é uma grande potência", disse ele numa entrevista à televisão. "Os Estados Unidos não estão agindo contra o Estado de Israel. Os Estados Unidos apóiam o Estado de Israel. O problema de Sharon e que ele está sem saída, ele prometeu a paz e entregou o inferno". Grades jornais israelenses desaprovaram Sharon. "Foi uma declaração infeliz, historicamente incorreta, politicamente danosa e factualmente errada e aprofunda o senso de ameaça e estrangulamento que os israelenses sentem", escreveu o analista Sever Plotzker no diário Yedioth Ahronoth. "Ela nos enfraquece e insulta nossos amigos". Washington se sentiu realmente muito insultado. O embaixador americano Daniel Kurtzer telefonou para o primeiro-ministro a fim de informar-lhe sobre o descontentamento da administração, e o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, criticou a atitude de Sharon. "Os comentários do primeiro-ministro são inaceitáveis", disse. "Os Estados Unidos não estão fazendo nada para tentar apaziguar os árabes às custas de Israel". O escritório de Sharon divulgou nesta sexta-feira um comunicado conciliatório, dizendo que Sharon telefonou para o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, a fim de reafirmar os laços de Israel com os Estados Unidos. "O primeiro-ministro pediu para ser passado ao presidente seu apreço com a corajosa e ousada decisão do presidente de combater o terrorismo", afirmou. "Israel apoia plenamente essa posição e colabora com ela". Hemi Shalev sugeriu no diário Maariv que Sharon foi afetado pelo estresse de um ano de uma luta contínua com os palestinos, e pelo choque dos ataques de 11 de setembro e a perda na quinta-feira de um avião russo transportando israelenses e judeus russos para a Sibéria. Shalev disse que Sharon precisa falar duro para abafar críticas de partidários conservadores de sua coalizão de governo que acham que ele está sendo muito brando no trato com os palestinos. "Soa bem para a direita israelense, onde Sharon está perdendo rapidamente estatura, e também para os judeus americanos, de quem Sharon irá precisar se ele persistir em sua rota de colisão com a administração americana", escreveu Shalev. Palestinos que há muito reclamam sobre o que vêem como uma posição tendenciosa dos EUA em favor de Israel pareciam contentes com a desavença. O negociador palestino Saeb Erekat falou dos 25 palestinos mortos em confrontos com israelenses desde que os dois lados concordaram com um cessar-fogo em 26 de setembro. "É muito irônico que Sharon fale sobre a Checoslováquia em 1938", afirmou. "Gostaria de saber, neste caso, quem é Hitler?"

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