Sharon sofre críticas de todos os lados após cerco a Arafat

Críticos de esquerda, direita e centro acusam o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, de erro de julgamento após uma pressão política dos Estados Unidos que levou ao fim um cerco de 10 dias ao quartel-general do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat. "Sharon está deixando para trás uma falha colossal, a falha mais notável desde o início de seu mandato", escreveu o comentarista Hemi Shalev no jornal Maariv. Sharon partiu ontem para Moscou, pouco após ter tomado a decisão de desfazer o cerco ao QG, quando as críticas começavam a circular.Nesta segunda-feira, surgiu uma nova ameaça à sua coalizão governamental. Durante uma convenção do moderado Partido Trabalhista, os parlamentares da agremiação resolveram endurecer com relação a um assunto interno - o orçamento. Sharon já avisou que, se o orçamento não for aprovado até o fim de outubro, ele convocará eleições antecipadas.Ministros trabalhistas já decidiram apoiar o orçamento - e assim permanecer no governo -, em parte devido à possibilidade de a guerra que os EUA pretendem promover contra o Iraque fazer com que o momento não seja muito propício para o surgimento de novas divisões políticas. No entanto, delegados do partido obrigaram os ministros trabalhistas a participarem de uma nova convenção para reportar as negociações sobre o orçamento antes de sua votação pelo Parlamento, desafiando a autoridade do líder do partido, o ministro da Defesa Binyamin Ben-Eliezer.ConfrontosEnquanto isso, prosseguiram os choques nas áreas palestinas. Um tiroteio ocorreu hoje no centro de Nablus, na Cisjordânia. Testemunhas contaram que aparentemente franco-atiradores palestinos abriram fogo contra soldados israelenses, que reagiram. Um soldado israelense morreu e outro ficou gravemente ferido no confronto. Uma coluna de fumaça subia de um prédio nos arredores. Helicópteros e ambulâncias militares dirigiram-se ao local.Fontes palestinas revelaram que um menino de 10 anos foi assassinado por munição real e 25 pessoas ficaram feridas quando soldados atiraram contra pessoas que jogavam pedras em seus veículos blindados. O Exército do Estado judeu preferiu não comentar o assunto. Mais cedo, um garoto palestino de 11 anos foi assassinado no campo de refugiados de Balata, nos arredores de Nablus, onde soldados israelenses abriram fogo contra crianças que atiraram pedras num tanque quando estavam a caminho da escola. O Exército israelense garantiu que seus soldados dispararam contra um rapaz que estava prestes a detonar uma bomba.Uma mulher de 43 anos entrou em estado de coma depois de tanques israelenses terem disparado bombas contra sua casa no campo de refugiados de Rafah, na Faixa de Gaza. Palestinos alegam que a bomba foi lançada sem que houvesse provocação. Israel negou que seus tanques tivessem disparado bombas. Segundo o Exército, soldados dispararam com seus fuzis após um ataque de morteiros contra um posto militar.Durante os choques, um fotógrafo da Associated Press, Nasser Ishtayeh, foi levemente ferido no pé por estilhaços de munições utilizadas nos choques. Com a maior parte dos soldados israelenses já fora do campo de visão, funcionários palestinos começaram hoje a limpar os destroços do devastado QG de Arafat, onde tropas israelenses derrubaram quase todos os prédios em retaliação a um atentado que deixou seis mortos em Tel Aviv em 19 de setembro.RetiradaHoje, Arafat exigiu que os soldados israelenses recuassem ainda mais e disse que agora Israel precisa implementar o restante da resolução adotada na semana passada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) - a retirada militar das cidades autônomas palestinas. Israel alega que não pode fazê-lo até ter certeza de que os atentados não serão retomados.O Estado judeu encerrou ontem o cerco ao QG de Arafat após a resolução da ONU e repetidas reclamações norte-americanas de que as medidas israelenses atrapalhavam seus esforços para obter apoio para uma ofensiva contra o líder iraquiano Saddam Hussein. "Nós não consideramos (na semana passada) que os Estados Unidos já tinham entrado em contagem regressiva para atacar o Iraque", disse o ministro da Habitação de Israel, Natan Sharansky. "A decisão foi tomada em caráter de urgência, e este é o resultado."O ministro de Turismo, Yitzhak Levy, também disse que a decisão de cercar Arafat foi tomada com base em "conclusões errôneas", apesar de acreditar que a medida enfraquecerá o líder palestino no longo prazo. O ex-primeiro-ministro Binyamin Netanyahu reclamou que Sharon não foi duro o bastante com Arafat e deveria tê-lo deportado para obrigar os palestinos a encontrarem outros líderes. "Se Arafat for deportado para Paris ou Teerã, será transformado em algo irrelevante", publicou o jornal Yediot Ahronot, em declarações atribuídas a Netanyahu.Políticos israelenses moderados acusam o governo de ter embarcado no cerco sem um plano para finalizá-lo e sem prever seus resultados mais prováveis. Pesquisas mostram que Arafat saiu fortalecido do cerco israelense. Segundo os palestinos, a ação militar contra Arafat congelou os esforços de outros líderes palestinos que pretendiam forçá-lo a dividir o poder e indicar um primeiro-ministro.Nabil Abu Rdeneh, um importante conselheiro de Arafat, disse que o líder palestino retomaria as consultas para a formação de um novo gabinete, com a intenção de substituir os ministros, que foram obrigados a apresentar renúncia no início de setembro como parte de um esforço para pulverizar a influência de Arafat. "Certamente, é preciso haver um novo gabinete o mais rápido possível", comentou. Em Beitunia, um bairro de Ramallah, tanques e soldados israelenses cercaram uma casa onde vive um militante palestino, relataram fontes. Os tanques dispararam bombas contra a residência e os soldados pediram que as pessoas em seu interior saíssem e assumiram o controle do local.

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