Sheila, a brasileira que foi ao Iraque conhecer Saddam

Sheila Villar nunca imaginou que receberia resposta para aquela carta. Era o ano de 1980. Incomodada com o início da guerra entre o Irã e o Iraque, a estudante brasileira, na época com 20 anos, decidiu mandar uma carta para o Ministério das Relações Exteriores dos dois países pedindo paz.Três meses depois, Sheila recebeu um telefonema do embaixador do Iraque no Brasil. "Ele disse que Saddam tinha se comovido com a carta, mas eu achei que era um trote", conta.Para tirar a prova, o embaixador pediu que Sheila retornasse a ligação para a Embaixada. Ela esqueceu de discar o código de Brasília, e a ligação caiu numa residência. Quando percebeu o erro, voltou a telefonar e comprovou que era mesmo o embaixador. "Ele fez um convite, em nome do governo, para eu e mais quatro pessoas conhecermos o país."A família de Sheila, no entanto, não gostou da idéia. "Eles se negaram a autorizar a viagem", conta. "Minha avó achou que eu seria vendida como escrava branca no Oriente Médio", diverte-se. Para tranqüilizar a família da estudante, o embaixador iraquiano visitou os pais de Sheila e assinou um termo se comprometendo com a segurança da jovem. A família acabou concordando, mas ninguém quis acompanhá-la na viagem. Sheila então convidou uma amiga."Quando chegamos a Bagdá, tivemos uma surpresa grande", relembra Sheila. À espera das brasileiras no aeroporto, um motorista, seguranças, e representantes da Federação Iraquiana de Mulheres, que serviriam de guias para a visita."Estava tudo ótimo e, no terceiro dia, me falaram que eu seria recebida por Saddam." O primeiro encontro aconteceu em um dos palácios presidenciais. Ao cumprimentá-las, um "carismático" Saddam Hussein disse estar "feliz de ver que uma estudante brasileira, de tão longe, se mobilizou por nossa causa". A conversa durou quase uma hora, e incluiu dicas turísticas do líder iraquiano, que sugeriu as cidades de Ur, Kirkuk e Babilônia.Sheila diz que Saddam aparecia de surpresa em alguns passeios. "Ele perguntava se estávamos sendo bem tratadas", diz. Segundo ela, Saddam sempre se mostrou "sério, atencioso e muito respeitoso". Mas descarta a possibilidade de o líder iraquiano ter se apaixonado por ela. "Era mais um sentimento paternal. Quando machuquei o olho em uma tempestade de areia, ele trouxe um médico suíço para me examinar."Nos quatro meses em que permaneceu no Iraque, Sheila visitou hospitais, escolas e cidades históricas, - tudo à custa do governo iraquiano. "Sempre sentia que Saddam era respeitado e admirado pelo povo. Nunca percebi medo." Quando partiu, levou a impressão de que o Iraque se tornaria "um grande país".Hoje, ao ver as imagens de guerra no Iraque, Sheila se pergunta o que deu errado. "Saddam parecia ter grandes planos para o país, havia obras por todos os lugares. É uma pena que tudo mudou tanto."Sheila ainda se emociona ao lembrar da experiência. "Tomei uma atitude de coração, com intenções genuínas", justifica. E assegura que, se uma de suas três filhas (de 13, 17 e 18 anos) quiserem fazer algo parecido, dará todo apoio. "Desde que seja do coração." Veja o especial :

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