Show de Trump ofuscado por ausências

Principais líderes do Partido Republicano não vão à convenção que começa na segunda-feira em Cleveland e deve oficializar candidatura do magnata

Philip Rucker, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2016 | 16h45

Quando os democratas se reunirem na convenção nacional na Filadélfia, no dia 25, na lista de oradores que vão elogiar Hillary Clinton estarão o presidente, o vice, a primeira-dama, um ex-presidente e uma galáxia de celebridades políticas. No entanto, na convenção republicana, que começa na segunda-feira, 18, em Cleveland, Donald Trump terá apenas parentes e alguns políticos cujos nomes quase ninguém conhece.

Muitos líderes do Partido Republicano preferiram manter distância de Cleveland. A disparidade entre as duas convenções demonstra a situação dos dois partidos – um deles unido para o que espera ser sua quinta vitória nas últimas sete eleições presidenciais, enquanto o outro permanece dividido e até agora sequer aceita seu novo líder. “Os republicanos sempre tiveram um terrível déficit de estrelas para representá-los, mas agora parece pior”, disse Rick Wilson, estrategista republicano que não apoia Trump.

“Na convenção democrata estarão, além de Hillary, Bill Clinton, Barack Obama, Michelle Obama, Elizabeth Warren. Ao contrário, o evento republicano será como um vídeo sobre um grupo de reféns obrigados a subir no palco”, afirma Wilson.

A senadora Warren, cotada para compor a chapa de Hillary, deve pronunciar um importante discurso, assim como dois outros possíveis candidatos à vice-presidência, os senadores Tim Kaine e Cory Booker. Além deles, há ainda o senador Bernie Sanders, que na terça-feira encerrou sua campanha e deu apoio a Hillary.

Do lado republicano, o presidente da Câmara, Paul Ryan, será o líder partidário de maior expressão. No discurso que pretende proferir na convenção, ele falará sobre sua agenda conservadora na Casa e pedirá a união dos republicanos.

Entre as principais atrações estarão os parentes de Trump: sua esposa, Melania, e os três filhos adultos, principalmente a filha Ivanka. Eles poderão revelar alguns aspectos do caráter do magnata. Há quatro anos, Ann Romney fez um discurso memorável na convenção, quando falou de sua história de amor com o marido Mitt. Mais notáveis, porém, serão as ausências.

Os dois últimos candidatos republicanos, Mitt Romney e John McCain, não irão. Os dois únicos presidentes vivos do partido, George H. Bush e George W. Bush, também não – assim como Jeb Bush, ex-governador da Florida que perdeu as primárias para Trump. De fora também ficarão as governadoras Nikki Haley, da Carolina do Sul, e Susana Martínez, do Novo México, além do senador Marco Rubio, da Flórida.

“O fato de os mais antigos membros do partido não aceitarem defendê-lo diz muito sobre o Partido Republicano”, disse Bill Burton, estrategista democrata. “Se Trump tem dificuldades para conseguir oradores que queiram contar sua história, a coisa é grave.”

Comparações. Russell Schriefer, estrategista republicano que ajudou a organizar a convenção de 2012, lamenta as ausências. “Nenhuma importante figura democrata afirma que ficará em casa porque Hillary Clinton foi indicada pelo partido. No entanto, é o que está ocorrendo com Trump.”

Por outro lado, segundo Schriefer, a ausência de importantes figuras oferece “uma oportunidade para os republicanos lançarem outros astros na convenção”. Ele observou que o sucesso explosivo de Barack Obama se deu na Convenção Nacional Democrata de 2004, em Boston, quando ele ainda era senador do Estado de Illinois.

Há meses, Trump promete que sua convenção será diferente de todas as outras – algo espetacular, que se destacará do teatro político tradicional. Em entrevista ao Washington Post, em abril, o magnata disse que a convenção de Tampa, há quatro anos, foi “a mais tediosa” que ele já viu.

“É muito importante dar um clima de show numa convenção para as pessoas não caírem no sono”, disse. Trump tem vários planos, como uma “noite do vencedor”, estrelada por heróis dos esportes e ícones culturais de décadas passadas, mas ele e sua equipe não quiseram dar detalhes.

A lista dos oradores ainda não foi divulgada, o que sugere uma corrida para definir os nomes das personalidades. A incerteza tardia é inusitada, porque as convenções costumam ser rigorosamente organizadas e coreografadas.

Desconhecidos. Em Cleveland, entre os republicanos que têm apoiado Trump, estarão a senadora Joni Ernst, de Iowa, que se projetou no cenário político em 2014 com uma animada propaganda na televisão em que prometia aplicar sua habilidade na área de castração de suínos em Washington para “fazê-los berrar”. Trump a considerava uma possível companheira de chapa e eles chegaram a se reunir no dia 4 de julho, mas ela posteriormente recuou.

Também confirmou presença o senador Tom Cotton, de Arkansas, que se elegeu para o Senado no ano passado. Cotton é um dos poucos jovens republicanos considerados prováveis futuros candidatos à presidência. Outro é o senador Ben Sasse, de Nebraska, que é um crítico do magnata e não deve dar as caras em Cleveland.

Pelo menos dois adversários de Trump nas primárias pretendem falar aos delegados em Cleveland: o senador Ted Cruz, do Texas, e o governador Scott Walker, de Wisconsin. Os dois estão tentando, desesperadamente, recompor suas imagens profundamente afetadas na batalha pela indicação nas primárias, preparando-se para a próxima disputa daqui a quatro anos. Entretanto, nenhum deles apoiou plenamente Trump e não está claro se pretendem servir de oradores.

Apoio. O ex-governador de Arkansas Mike Huckabee outro pré-candidato em 2016, é um dos que pretende falar. Entre os rivais de Trump nas primárias que não falarão na convenção está John Kasich, que como governador de Ohio será uma espécie de anfitrião do evento que durará quase uma semana. Ele disse que deverá estar em Cleveland, mas não pretende pôr os pés no salão de convenções ou falar em nome de Trump.

O companheiro de chapa de Trump. Mike Pence, atual governador do Estado de Indiana, fará um pronunciamento formal. Evangélico e com sólidas credenciais conservadoras, Pence é considerado uma peça-chave para que o magnata conquiste as bases do partido que ainda desconfiam de seu candidato.

Entretanto, estrategistas republicanos acham que a convenção de Cleveland não deverá abarcar toda a diversidade do Partido Republicano, tanto em termos raciais quanto geracionais. Além de Rubio e Martínez, astros em ascensão, as deputadas Mia Love, de Utah, e Elise Stefanik, de Nova York, também estarão ausentes na convenção.

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