Show oficial denuncia 'campanha' contra Cuba

Ato tem objetivo de mostrar apoio interno ao regime e repudiar jejum de dissidentes

Afp, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

HAVANA

Havana organizou para hoje um grande concerto cujo objetivo é rechaçar o que as autoridades da ilha consideram uma "campanha dos EUA e da Europa" para desestabilizar o regime dos Castros. Cantores como Silvio Rodríguez se apresentarão na emblemática Tribuna Anti-imperialista, na frente do Escritório de Interesses dos EUA. Também haverá shows no antigo Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, palco do ataque frustrado de Fidel Castro e aliados em 1953.

Ícone da canção de protesto na América Latina, Rodríguez disse que a decisão de participar do concerto reflete "sua confiança no processo transformador iniciado em Cuba há 50 anos". Numa entrevista recente, o cantor havia dito que Cuba pedia "a gritos uma revisão de um monte de coisas - de conceitos até instituições". A mudança de tom parede uma tentativa de evitar choques com o regime.

Os shows são uma forma do governo cubano tentar mostrar ao mundo que tem apoio interno. Além do evento de hoje, ele também planeja transformar as tradicionais comemorações do 1.º de maio (Dia do Trabalho) em um ato de repúdio à "campanha contra Cuba".

As pressões sobre a ilha estão crescendo desde fevereiro, quando o preso político Orlando Zapata Tamayo morreu após 85 dias de greve de fome. No mesmo dia, o psicólogo e jornalista independente Guillermo Fariñas iniciou uma greve de fome para pedir a libertação de outros 26 presos políticos doentes.

Em março, Cuba voltou para o noticiário internacional com os protestos das Damas de Branco, grupo formado por mães, mulheres e irmãs de presos políticos. O objetivo era lembrar os 7 anos da ofensiva que levou à prisão de 75 jornalistas e ativistas.

Na quinta-feira, um grupo de dissidentes propôs um referendo sobre a libertação dos presos políticos da ilha. O Parlamento Europeu já aprovou uma moção condenando a morte de Zapata e os EUA tem criticado o tratamento dado a dissidentes.

O presidente da ilha, Raúl Castro, porém, qualifica a greve de fome de Fariñas como uma "chantagem" patrocinada pelos americanos e europeus e diz que a ilha não cederá. "O império e seus aliados lançaram-se numa nova cruzada para demonizar Cuba", dizia ontem o jornal oficial Granma. "Sua poderosa maquinaria política e midiática prepara uma colossal operação para desacreditar o processo revolucionário." Para a chanceler americana, Hillary Clinton, "os Castros não querem o fim do embargo, nem normalizar as relações com os EUA".

Pontos-Chave

Havana em cheque

O regime cubano costuma convocar grandes manifestações quando se envolve em disputas internacionais ou é colocado em xeque. Em 2000, diversos atos (foto) foram convocados para pedir a volta do garoto Elián González, cuja guarda era reivindicada pelo tio em Miami e o pai, em Cuba.

Disputa com opositores Alguns atos também são organizados para rechaçar iniciativas de dissidentes. No mês passado, as mulheres de presos políticos que fizeram passeatas por uma semana para lembrar os sete anos da prisão de seus maridos foram cercadas por cerca de 800 simpatizantes do regime que as insultavam durante o trajeto de volta para casa.

Tribuna anti-imperialista

O espaço foi construído durante a disputa por Elián para abrigar as manifestações pró-governo. Está localizado na frente do escritório de interesses americanos em Havana e até 2009 uma bandeira cobria o painel pelo qual os EUA enviavam mensagens aos cubanos.

Facilidades

O governo costuma oferecer transporte e comida para muitos manifestantes. Às vezes, as estatais e escritórios do governo convocam diretamente seus funcionários. Os shows de música também são uma forma de atrair o público.

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