Silenciando a verdade na Argentina

Cristina Kirchner está de salto alto. Segundo o tabloide americano New York Post, a estilosa presidente argentina foi flagrada em Paris de sapato Christine Louboutin - 20 pares deles, aliás. A US$ 5.500 o par, a conta total teria chegado a $110 mil.

É CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h05

La Kirchner nega a extravagância. E seu chefe de gabinete, Aníbal Fernández, desancou o "jornalismo marrom" de Rupert Murdoch, dono do Post e pivô do maior escândalo da imprensa britânica, e ainda alertou sobre o perigo de a mídia recorrer a fontes "de tamanha baixeza e sem a menor credibilidade".

Nunca uma ameaça à vida democrática foi tão eloquentemente definida. A informação deturpada não apenas distorce fatos, como provoca conflitos, solapa instituições e ludibria cidadãos, sejam magnatas ou operários. Que o digam os argentinos.

Semana passada, o juiz Alejandro Catania intimou o jornal El Cronista Comercial, entre outros, a fornecer nomes, endereços e telefones de jornalistas que escrevem sobre inflação. Em quase qualquer outro país, a medida causaria espanto.

Em 2007, preocupado com a economia aquecida e os eleitores inquietos, o então presidente Néstor Kirchner intrometeu-se no respeitado Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), demitindo a diretora responsável pelo Índice de Preços ao Consumidor. A ofensa dela: calcular a inflação de janeiro daquele ano em quase 2%, o dobro da taxa oficial divulgada ao público. A diretoria do Indec pediu demissão e foi imediatamente trocada por outra, fiel à numerologia da Casa Rosada. Assim era na Argentina, um governo soberano que comandava uma economia frágil, capaz de vergar dados sólidos como Uri Geller derretia colheres.

A contabilidade governista ajudou a pauta política. Cristina foi eleita em 2007, com 75% dos votos válidos. Com a inflação em alta, resolveu aprofundar a "reforma" do Indec. A oposição denunciou a manobra, acusando o governo de maquiar os dados e de sistematicamente subestimar a inflação. Mas a Justiça argentina, loteada pelo kirchnerismo, entrou em ação e lançou mão do Artigo 400 do código penal, que penaliza "fraudes" no comércio e na indústria.

Foi o início do fim dos dados isentos. Até então, o Indec era um farol na nebulosa economia argentina. Agora não orienta mais ninguém. Desde 2008, o FMI e o governo argentino não se entendem sobre as contas nacionais. De dissídios coletivos a balanços anuais, os argentinos recorrem a estimativas independentes. Resultado: enquanto o Indec divulgou a inflação de 9,8% em agosto, analistas de mercado falam em 20%.

Ou melhor, falavam. Cercada de juízes amigos, Cristina já puniu nove empresas de consultoria econômica neste ano, impondo multas por publicar estatísticas "enganosas". Agora chegou a vez dos jornalistas.

O trabalho da imprensa, claro, é esclarecer e não se impressionar por fontes de informação distorcida - "de tamanha baixeza e sem a menor credibilidade", como diria o kirchnerismo. O problema é quando a economia é frágil e o governo, soberano. Cristina tem força para impor o silêncio. Cotada para vencer a reeleição em outubro, Cristina está de salto alto.

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