Seshenka Gutiérrez/EFE
Seshenka Gutiérrez/EFE

‘Silêncio', a regra entre as ruínas

Quando as mãos fechadas são erguidas, os gritos que pedem por mantimentos cessam, as conversas acaloradas perdem força, os avisos de megafone são interrompidos e a expectativa cresce

Carla Peralva / CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2017 | 05h00

No meio do caos, um punho é erguido no ar. Depois outro, e outro, e mais um. As mãos fechadas levantadas vão se espalhando pela multidão – e com elas vem o silêncio. 

É o código que os brigadistas mexicanos usam para pedir que militares, voluntários e curiosos se calem ao redor de uma das áreas afetadas pelo terremoto de 7,1 graus que abalou o México.

Quando as mãos fechadas são erguidas, os gritos que pedem por mantimentos cessam, as conversas acaloradas perdem força, os avisos de megafone são interrompidos e a expectativa cresce. De ruídos apenas as muitas buzinas de carros e ambulâncias, indiferentes ao trabalho, presos no trânsito caótico que se instalou na capital após o sismo. 

A polícia, durante a noite seguinte ao tremor, aconselhava em alto-falantes que os moradores deixassem uma mala pronta, com água e comida, e tomassem cuidado ao dormir – não ficar perto de janelas. Uma dica prática para reagir em caso de novos tremores é deixar objetos como chaves na ponta de um móvel, para ser alertado logo do tremor. O metrô funcionava parcialmente, com entrada gratuita. Com o trânsito parado, essa era a principal alternativa de transporte.

O silêncio é essencial para encontrar sobreviventes nos escombros de prédios – mais de 40 construções ruíram por conta do tremor até esta quarta. Na manhã de ontem, esse era o cenário próximo a um prédio na esquina das ruas Ayala e Tlalpa, no bairro de Portales. Um pedaço do edifício ruiu e havia vítimas, embora as autoridades não tenham detalhado o número. Duas mulheres com vida estavam nos escombros ontem à noite.

Dois temas permanentes entre os que participavam do resgate eram a coincidência de datas – o tremor ocorreu exatamente 32 anos após o terremoto que matou mais de 10 mil em 19 de setembro de 1985 – e a generosidade da população. As autoridades organizaram em alguns pontos turísticos da capital centros para receber alimentos, donativos e inscrever quem desejasse ajudar, mas não contavam com um “problema”. Havia voluntários em excesso.

Isso ocorreu diante do edifício que ruiu no bairro Portales, onde muitos foram redirecionados. A orientação em caso de “excesso” de voluntários é convencê-los a esperar e, assim, trabalhar em turnos, rendendo os que em algumas horas precisarão descansar. Psicólogas e paramédicos esperam horas até poder ajudar efetivamente.

Victor Guillermo Corona Baptista, de 32 anos, era um dos voluntários. Engenheiro civil especializado em estruturas metálicas, ele ajudou no tremor do dia 8, que matou 98 pessoas, indo para o sul do país. Ele formou com amigos um grupo de peritos que vai aos locais atingidos por terremotos. 

No prédio de Portales, ele organizou ferramentas e se encarregou de conseguir pás, capacetes, mesas, lonas, pinos, lâmpadas, e o que mais fosse necessário. Cada vez que surgia um pedido do ponto de escavação, ele era o encarregado de achar o material. O que não havia disponível no lugar era comprado imediatamente por vizinhos. 

Os voluntários se organizam em times especializados. Há os que cuidam das ferramentas, os que fazem a comunicação com a Defesa Civil, os que cuidam de água e comida, os que buscam medicamentos, suturas e curativos.

A enfermeira Monica Hurtado é vizinha do prédio e organizou na garagem um banquete para os socorristas, voluntários e parentes, que podiam consumir frutas, sanduíches e refrigerantes. Outros vizinhos seguiram a tradição mexicana de cozinhar e servir alimentos na rua, o lugar mais seguro para os mexicanos assustados por dois tremores em 12 dias.

 

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