Silêncio de Chávez inquieta Venezuela

Presidente passa por radioterapia para combater tumor na região pélvica.

BBC Brasil, BBC

23 de abril de 2012 | 17h04

A ausência prolongada e um silêncio pouco comum do presidente Hugo Chávez estão fazendo muitos venezuelanos pensarem que o mandatário passa por uma etapa particularmente difícil de seu tratamento contra o câncer.

Chávez já havia afirmado que os últimos ciclos da radioterapia, iniciados no mês passado, seriam difíceis.

Mas sua ausência da televisão já é a mais prolongada desde o mês de novembro. Além disso, ele não fez nenhuma aparição pública desde um discurso em 13 de abril em Caracas.

O presidente do Congresso, Diosdado Cabello, rebateu rumores de que Chávez poderia estar morto.

"Esses amargurados não aprendem. Há dias estão dizendo que o comandante morreu. Aqui o único que está sem vida é o medíocre [em referência ao líder opositor Henrique Capriles]", afirmou.

Na semana passada, Chávez não compareceu à Cúpula das Américas, na Colômbia, nem às celebrações do Dia da Constituição da Venezuela - eventos nos quais assumiu um papel de detaque no passado.

Durante viagens anteriores a Cuba, Chávez aparecia na TV frequentemente, dando a entender que continuava trabalhando e se mantinha atualizado sobre os assuntos da Venezuela. O mesmo não ocorre agora.

O mandatário se submeteu a três cirurgias desde junho de 2011 como parte do tratamento contra o câncer. Tenta agora se recuperar da doença para disputar a reeleição em outubro.

Porém, Chávez decidiu manter em segrego alguns detalhes de sua doença - incluindo o tipo de câncer e a localização exata do tumor.

Estratégia

Sua estratégia contrasta com a de vários políticos que enfrentaram situações semelhantes. A maioria deles têm preferido a transparência após o diganóstico da doença.

Nos EUA, por exemplo, o presidente é obrigado a divulgar anualmente seus exames médicos.

Essa determinação seria algo impensável há algumas décadas, quando o então presidente Franklin Roosevelt governou por anos sem que seus eleitores soubessem que uma poliomielite o havia deixado em uma cadeira de rodas.

O ex-presidente francês François Mitterrand escondeu seu câncer de próstata durante mais de dez anos, até que a gravidade da doença o forçou a revelar seu segredo em 1992.

Contudo, atualmente esconder uma enfermidade é algo mais difícil para um governante.

Transparência

Quando a então candidata Dilma Roussef divulgou que estava recebendo tratamento para combater um câncer linfático, uma onda de especulações envolveu sua candidatura.

Mas, isso não a impediu de vencer o pleito. Após revelar que sofria da doença, pesquisas de opinião revelaram que sua credibilidade havia aumentado junto ao eleitorado.

O presidente paraguaio Fernando Lugo também optou pela transparência após ser diagnosticado com um linfoma em 2010.

"Por decisão dele [Lugo], desde que a doença foi descoberta, nós médicos recebemos a ordem de dar informações amplas e completas sobre o diagnóstico, o tratamento e as implicações", disse seu médico pessoal, Alfredo Boccia.

"Sempre é melhor pecar pela transparência, porque os detalhes acabam vazando. Assim se diminui a possibilidade de que os boatos cresçam como bolas de neve", afirmou Boccia.

A presidente argentina Cristina Kirchner tomou decisão semelhante ao ter um tumor diagnosticado no fim do ano passado - que em seguida foi classificado como um "falso positivo".

O presidente Chávez, por sua vez, tem feito aparições moderadas durante a campanha com o objetivo de oferecer garantias aos eleitores. Ele se baseia no argumento de que precisa ser reeleito para dar continuidade a um processo político que está se desenvolvendo na Venezuela.

* Com reportagem de Juan Paullier, da BBC Mundo em Caracas BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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