Silêncio de Fidel após acordo traz dúvidas

Não se sabe como o ex-líder cubano atuou e nem se ele teria permitido a reaproximação

NANCY SAN MARTÍN, NORA GÓMEZ TORRES, THE NEW YORK TIMES

20 de dezembro de 2014 | 02h03

O extraordinário anúncio feito simultaneamente por Washington e Havana sobre o restabelecimento dos laços entre Estados Unidos e Cuba, após quase 53 anos de embargo, suscitou muitas indagações.

Entre as principais: "Onde está Fidel Castro?". "Ele consentiu a histórica mudança?" Ou o ex-líder cubano com a saúde tão debilitada não é mais importante? "Os ditadores precisam de um inimigo e quanto maior, melhor", disse o ex-prisioneiro político cubano Sebastián Arcos, hoje diretor-assistente do Instituto Cubano de Pesquisas na Universidade Internacional da Florida (FIU, na sigla em inglês). "Será uma grande surpresa para mim se Fidel Castro estiver consciente e aprovar este acordo."

Frank Mora, diretor do Centro Caribenho e Latino-americano da FIU, também duvida que Castro tenha dado o sinal verde para o início das negociações. "Fidel Castro sempre tirou vantagem do seu relacionamento antagônico com os EUA", disse ele.

Castro, de 88 anos, passou o poder ao irmão mais novo, Raúl, em 2008, depois de adoecer em 2006. Mas continua mantendo-se presente, embora raramente seja visto ou ouvido em público. Textos assinados por ele continuam a aparecer nos jornais oficiais e, mais recentemente, em14 de outubro, em resposta a um editorial do New York Times.

Fotos dele em encontros com chefes de Estado estrangeiros foram publicadas em julho. Mas a última aparição pública foi em 8 de janeiro, quando assistiu à inauguração de uma galeria de arte em Havana. De aparência frágil, curvo, usava uma bengala para caminhar e estava cercado por vários seguranças.

Muitos observadores de Cuba aguardam que Fidel Castro faça um pronunciamento sobre o acordo com os EUA. Tentativas de reconciliação anteriores da parte de Washington, ainda no governo de Fidel, acabaram torpedeadas. Entretanto, o irmão Raúl, que lhe sucedeu, introduziu algumas reformas econômicas e - agora está claro - realizou negociações discretas com o governo do presidente americano, Barack Obama.

"A normalização das relações, principalmente as relações comerciais, sempre foi uma prioridade para Raúl Castro, não porque ele seja um democrata, mas por sua legitimidade como líder", afirmou Arcos. "Ele não a buscou antes porque Fidel não permitiria".

"Se Fidel não concordasse, isto não teria acontecido", afirmou Lesnik, da Alianza Martiana de Miami, fundador da revista Republica, amigo pessoal de Fidel Castro.

Lesnik não vê o ex-líder, mas tem certeza de que ele continua com boa saúde. "Se ele tivesse piorado, seria muito difícil manter a notícia em segredo", disse Lesnik. "Além disso, Raúl não faria nada tão drástico com o risco de afetar o bem-estar do irmão se este se opusesse.

"É importante que este acordo tenha sido concluído enquanto Fidel Castro está vivo e lúcido, porque se tivesse sido feito enquanto não estava fisicamente presente, haveria sempre a dúvida de que ele não teria concordado ou teria agido de maneira diferente", observou Lesnik. "Este acordo teve o seu beneplácito. De outro modo, seria considerado uma traição à revolução".

Há muito a ser visto quanto aos desdobramentos do pacto. O que se questiona também é se haverá mudanças na atual estrutura do governo da ilha.

Raúl Castro, de 83 anos , apareceu sozinho em uniforme militar para seu pronunciamento do meio-dia à TV, na quarta-feira. Quem estava olhando dos bastidores nos escritórios do governo, segundo fotos publicadas em Cuba, era o vice-presidente, Ramiro Vales, um revolucionário famoso que representa a velha guarda e atualmente supervisiona as telecomunicações da ilha.

"Isto é muito interessante e sugere que Ramiro poderá ser um concorrente numa luta interna", explicou Arcos. "Ocorre que Raúl e Ramiro não se dão muito bem. Raúl não deu um cargo de destaque a Ramon em seu governo. Se Fidel se encontra na fase final de sua vida, a disputa entre Raúl e Ramiro ficará interessante." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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