AP Photo/Aung Shine Oo
AP Photo/Aung Shine Oo

Silêncio desconcertante

Aung Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz, se cala diante do massacre em Mianmar

Gilles Lapouge , O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2017 | 05h00

O mundo inteiro, incrédulo, horrorizado, observa o massacre da população muçulmana rohingya em Mianmar por soldados dos generais budistas que governam o país. Quatrocentas mil pessoas pertencentes a essa minoria muçulmana, incluindo mulheres e bebês, vêm sendo caçadas como animais e tentam se refugiar no vizinho Bangladesh, país extremamente pobre e sem capacidade para acolher essa gente. Um dos maiores dramas neste mundo de hoje repleto de dramas.

Êxodos, massacres, genocídios, infelizmente estamos habituados a esse tipo de espetáculo. Mas o que vem ocorrendo em Mianmar tem uma conotação estranha. O governo é dominado por generais de uma brutalidade extrema, mas dele participa também uma personalidade fora do comum, Aung Suu Kyi, considerada uma heroína.

Aung é uma antiga e feroz opositora da junta que há 50 anos governa Mianmar com mão de ferro. Perseguida, isolada, jogada em campos e prisões durante mais de dez nos, ela jamais se dobrou a seus algozes. Em 1991, recebeu o Nobel da Paz. Foi finalmente libertada em 2010 e, mais tarde, eleita deputada. Em 2016, assumiu o cargo de chanceler, conselheira especial de Estado e porta-voz do governo.

No entanto, os generais não desapareceram, conservando postos estratégicos como os da Defesa, controle das fronteiras e da segurança pública. O país é dirigido de um lado por uma ditadura militar e, do outro, por uma mulher que, para o mundo externo, é uma garantia da democracia e dos direitos humanos.

Ora, o que faz e diz esta mulher sobre a perseguição dessa minoria muçulmana pelos soldados budistas? Vai se indignar com o fato de jovens e mulheres serem deportados em massa? Ou com helicópteros sobrevoando cidades atirando com metralhadoras, com pessoas sendo encerradas em suas casas e queimadas, ou com uma mulher que acaba de dar à luz vendo seu filho pisoteado pelos soldados? Silêncio.

Todo mundo procura entender sua apatia. É bom lembrar que ela foi eleita deputada pelos budistas, que não compreenderiam que ela fosse em socorro dos rohingyas. Ela, talvez, tenha medo de ver sua base eleitoral vacilar. Ou teme exacerbar e multiplicar o furor dos generais e, com isso, sua crueldade. 

A indignação dos países estrangeiros é quase unânime, com exceção da China. Mas Aung Suu Kyi está ausente. O silêncio dessa mulher corajosa é tão surpreendente que as explicações acima parecem um pouco breves, insuficientes. 

Algumas pessoas observam que essa sórdida limpeza étnica foi desencadeada por um atentado que ocorreu em 25 de agosto, levado a cabo por rebeldes muçulmanos da minoria rohingya. Esse ataque a delegacias é que agravou a situação. Ou, de acordo com algumas fontes, o ataque teria sido realizado por rohingyas, mas por iniciativa e com apoio da Al-Qaeda, organização terrorista que, impulsionada por Bin Laden, cometeu atrocidades no mundo, não hesitando mesmo em atacar os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, com a destruição das Torres Gêmeas de Nova York.

Se essas informações forem exatas, então a perseguição aos rohingyas é criminosa, claro, mas muda de caráter. Em vez de ser um assunto interno de Mianmar, país no qual 90% de seus habitantes são budistas, seria um novo episódio terrível da guerra travada pelo mundo contra os fanáticos da jihad. Até agora, não há nenhuma prova disso. No entanto, vale a pena notar que a Al-Qaeda denunciou a operação lançada pelos generais birmaneses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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