Silêncio do PC chinês põe em dúvida nova política agrária

Plano de ampliar direitos de camponeses sobre terra teria dividido o partido

Edward Wong, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

16 de outubro de 2008 | 00h00

Os líderes chineses ainda não anunciaram os detalhes da política agrária que informaram ter adotado no domingo, contribuindo para especulações sobre uma possível divisão entre os membros do Partido Comunista a respeito de importantes aspectos da medida. Acadêmicos e analistas chineses e estrangeiros discutem esta semana as razões que teriam levado os líderes a silenciar sobre a questão. Quando a sessão anual de planejamento do PC começou, na semana passada, as autoridades iniciaram a revisão do projeto de reforma agrária que o presidente Hu Jintao estaria apoiando. Acadêmicos e assessores do governo informaram que a política proposta contempla duas mudanças fundamentais: a permissão para que camponeses negociem, comprem e vendam direitos de uso da terra sem nenhuma restrição e a extensão da vigência dessas concessões dos atuais 30 anos para 70.Funcionários de alto escalão do governo, como o próprio Hu, pretendiam tratar das mudanças da política durante a sessão, informaram os analistas. Mas o comunicado emitido no domingo à noite não mencionou especificamente a nova medida. Em vez disso, o partido anuncia, em termos genéricos, que estava adotando uma política de reforma agrária que dobraria a renda per capita dos agricultores até 2020.A agência oficial de notícias Nova China afirmou que o governo planeja "criar um sistema ?rigoroso e normativo? de gestão da terra no campo".Na segunda-feira, o principal editorial do China Daily, órgão estatal em língua inglesa, disse que os detalhes da reforma seriam anunciados em alguns dias. Mas isso ainda não ocorreu.VISITA DE HUSegundo alguns acadêmicos, Hu, que é também secretário-geral do partido, pode ter encontrado forte oposição à proposta durante a sessão - e estaria lutando para conseguir sua aprovação. No dia 30, para divulgar o anúncio da nova política, Hu fez uma visita oficial à aldeia de Xiaogang, na Província de Anhui, onde em 1978 teve início uma experiência na qual os agricultores começaram a cultivar terras de sua propriedade, abandonando o sistema de coletivização da época de Mao Tsé-tung.Atualmente, algumas famílias da aldeia arrendam um total de 17,8 hectares para uma companhia de Xangai - modelo que Hu evidentemente espera seguir em sua política. Esta semana, analistas e assessores do governo levantaram várias questões sobre a reforma. Xu Xuaoping, vice-diretor do Departamento de Agricultura do Centro para o Desenvolvimento e Pesquisa do Conselho de Estado, do governo central, disse a um jornal de Pequim que "a questão da terra é muito complicada e a política agrária da China não seguirá um único modelo para todos". E acrescentou que "a política deve estar adequada a uma situação específica num lugar específico". Os comunicados emitidos pelo governo muitas vezes são vagos e alguns afirmam que a proposta de Hu - ou pelo menos alguns aspectos dela - pode ter sido aprovada como parte da política de reforma adotada.O governo deve estar esperando que ela receba uma aprovação formal do Congresso do Povo, em março, para a divulgação de detalhes precisos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.