Silêncio sobre doença alimenta boatos

Ao omitir detalhes sobre diagnóstico e prognóstico, governo venezuelano aumenta audiência de blogs dedicados a espalhar rumores

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h01

Pouquíssimo se sabe sobre o real estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez - com exceção de que há mais de um ano e meio ele tem um câncer na área pélvica que o levou a quatro cirurgias em Cuba. Não se sabe em qual órgão o tumor se instalou ou se espalhou. Não se informou sobre quais técnicas cirúrgicas foram aplicadas. Acredita-se que nem mesmo altos dirigentes de seu partido conheçam com precisão diagnósticos e prognósticos dos médicos cubanos que tratam do presidente.

Os comunicados oficiais, transmitidos pelo vice-presidente Nicolás Maduro ou pelo ministro de Comunicações Ernesto Villegas, são escassos, vagos e, muitas vezes, contraditórios.

No domingo, horas antes de Villegas informar que o estado de saúde de Chávez era "delicado" e o obrigava a um "repouso estrito", Maduro chegou a dizer que o presidente estava "consciente e orientando a equipe de governo" venezuelano.

"A mídia da Venezuela está sob o controle de uma rígida lei, a Lei de Responsabilidade Social de Rádio e TV (Resort), que prevê punições pesadas para o que o governo venezuelano pode interpretar como 'terrorismo midiático' e criação de situações de 'agitação social'", declarou ao Estado um dirigente de emissora de Caracas sob a condição de anonimato. "Por isso, os meios de comunicação limitam-se aos boletins oficiais. Em Cuba, sob a proteção do serviço secreto castrista, Chávez tem a garantia de que os segredos sobre sua saúde estão bem guardados."

Diante do apagão informativo, os rumores inundam as redes sociais, onde alguns blogueiros e tuiteiros já anunciaram a morte de Chávez e até apresentaram, como se fosse verdadeira, uma imagem montada do presidente em um caixão.

As contas do microblog Twitter do jornalista Nelson Bocaranda e do médico José Marquina - ambos postando de fora da Venezuela - têm batido recordes de acesso nos últimos dias. Bocaranda conta histórias na sua página, por exemplo, de como a presidente brasileira, Dilma Rousseff, telefonou na semana passada para Maduro. Não para pedir ao vice venezuelano informações sobre Chávez. Mas sim para informá-lo de que a situação do "comandante" era irreversível. Em várias ocasiões, Bocaranda noticiou a iminente chegada de Chávez a São Paulo para que fosse tratado no Hospital Sírio-Libanês. Todos os médicos do Sírio consultados por jornalistas brasileiros rejeitaram a versão.

Marquina, em seus posts, transmite supostas informações que só médicos envolvidos no tratamento do presidente poderiam ter. Entre eles o grau de oxigenação da ventilação mecânica à qual Chávez se submete.

"Enquanto isso, os venezuelanos vão se especializando na leitura de entrelinhas das distintas declarações, como faziam os antigos kremlinólogos, experts em interpretar ausências de dirigentes e mudanças bruscas de linguagem", diz Ewald Scharfenberg, que dirigiu em Caracas o Instituto Prensa e Liberdade - perseguido pelo chavismo - e hoje é articulista do jornal espanhol El País.

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