'Sim' e 'não' buscam voto de 500 mil na Escócia

Indecisos devem romper empate técnico na campanha por independência escocesa

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2014 | 02h00

Sob a chuva persistente que caia no início da noite de ontem em Edimburgo, Tim Brown, médico aposentado de 60 anos, batia de porta em porta em um bairro da periferia da capital em nome da campanha pelo "não" à independência da Escócia. O esforço é para convencer 500 mil indecisos que determinarão o futuro da Grã-Bretanha, na quinta-feira.

Por todo o país, milhares de militantes pró e contra a secessão disputam palmo a palmo o voto de cada eleitor. O corpo a corpo de última hora é necessário porque, depois de dois anos e meio de campanha, um empate técnico - 51% pelo "não", 49% pelo "sim" à independência - persiste a 60 horas da abertura das urnas.

A estimativa faz parte de uma pesquisa que faz a média de todas as sondagens realizadas no país. De acordo com analistas, o resultado do referendo é imprevisível e, diante da incerteza, os dois lados se lançaram nas campanhas de porta em porta pelos últimos votos, que o Estado acompanhou ontem.

Um desses militantes era Brown, que ontem visitou vários moradores de condomínios de classe média baixa de Edimburgo em busca de apoio pelo "não". Para cada interlocutor, ele adaptava o discurso segundo as respostas que ouvia, mas sempre repetindo o mesmo argumento: se estiver em dúvida, vote "não", pois o voto pela independência será irreversível.

"A Escócia tem sido parte da união por mais de 300 anos. Sou escocês, sou patriota, mas Escócia e Inglaterra são interdependentes e devem continuar assim para sempre", diz. "Algumas pessoas estão decididas, outras não. Procuro discutir as consequências do voto para o futuro da Escócia."

O discurso de, na dúvida, votar pelo "não" é a maior aposta dos unionistas. Ontem, em Aberdeen, norte do país, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, voltou a fazer um apelo emocional aos escoceses. "Vamos ser muito claros: não há volta. Esta é uma decisão para sempre", afirmou o premiê, muito impopular entre os escoceses.

Gol contra. Para convencer os indecisos, os unionistas convocaram o ex-jogador David Beckham, que escreveu uma carta aberta aos escoceses. No entanto, no texto, o astro da seleção inglesa parece ter marcado um gol contra. "Minha maior conquista foi ser capitão da minha seleção", esquecendo-se de que não existe uma seleção britânica e ele atuou pela Inglaterra, maior rival da Escócia.

Lidar com o medo de que a decisão não tenha volta é o maior desafio da campanha "Yes Scotland" (Sim Escócia) na reta final do referendo. Como seus adversários, os militantes do "sim" também se concentram no corpo a corpo, mas, em paralelo, vêm realizando grandes concentrações de rua, em uma demonstração de força e unidade para seduzir indecisos.

Bruce Washart, aposentado de 69 anos, optou pelo "sim", incomodado pela desigualdade crescente na Grã-Bretanha, e hoje faz campanha pela secessão. "Ser independente nos permitirá construir um país mais próspero e justo com os recursos que temos. A desigualdade está crescendo na Escócia e há fatos e números para provar", reclama. "Tudo o que ouvimos são grandes empresários e políticos de Westminster nos pedindo para permanecer na união. Não é isso o que queremos ouvir."

Diante de um referendo crucial, as duas campanhas estão quebrando todos os recordes de gastos em uma eleição. Até ontem, a campanha do "não" havia investido £ 2,7 milhões (R$ 10,2 milhões), enquanto a do "sim" gastou £ 1,8 milhão (R$ 6,8 milhões). É a votação mais cara da história da Escócia, superando os £ 3 milhões gastos na eleição geral que resultou na vitória dos conservadores e na escolha de David Cameron como premiê, em 2010.

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