Símbolo da repressão argentina é preso

Um dos principais símbolos da última Ditadura Militar argentina (1976-83), o ex-capitão Alfredo Astiz foi preso na madrugada desta segunda-feira por ordem da Justiça argentina a pedido da Justiça italiana. Nos tribunais romanos, Astiz é acusado de ter sido o responsável pelo desparecimento de três cidadãos italianos em território argentino durante o regime militar. No entanto, a juíza Maria Servini de Cubría, que ordenou sua detenção, não poderá autorizar sua extradição à Itália. Somente o governo argentino poderá determinar se aceita o pedido italiano. Se isto ocorrer, será a primeira vez na história do país em que um ex-repressor da Ditadura é extraditado para julgamento no exterior. Mas, segundo analistas, as chances de que isto ocorra são pequenas, já que o governo poderá argumentar - como em ocasiões anteriores - que na Argentina prevalece o conceito de territorialidade, no qual um crime cometido neste país por argentinos, mesmo que as vítimas sejam estrangeiras, somente pode ser julgado em território argentino. Astiz foi procurado durante todo o domingo pela polícia em diversas partes do país. O ex-capitão não estava no lugar que definiu como residência, o Centro Naval, nem na casa de seus pais. No entanto, o ex-repressor entregou-se pacificamente à polícia pouco depois da meia-noite. Há três anos, Astiz concedeu sua primeira entrevista à imprensa, causando polêmica. Em declarações à revista Trespuntos, definiu-se como "o melhor homem para matar um presidente". Além da Justiça italiana, Astiz precisa ajustar contas com a Justiça francesa: em 1990, o ex-capitão foi condenado - à revelia - à prisão perpétua pela morte das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet. Astiz também é procurado pela Justiça da Suécia: durante uma operação para seqüestrar militantes de esquerda, Astiz e seu grupo entraram na casa de uma estudante. Ali estava Dagmar Hagelin, uma jovem sueca, amiga da estudante procurada pelos militares. A adolescente fugiu dos repressores e foi morta com um tiro certeiro na nuca disparado por Astiz, que gargalhou ao comprovar sua pontaria. Com sua cara de menino bem-comportado, infiltrou-se na organização de defesa dos direitos humanos Mães da Praça de Maio, fazendo-se passar por parente de um desaparecido. A cara ingênua de Astiz convenceu as Mães, que somente perceberam quem ele era tempos depois. Sob este disfarce, Astiz foi o responsável pelo desaparecimento das duas freiras francesas. ?Menino de ouro? da ditadura, Astiz foi protegido pela cúpula militar, que lhe concedeu a honra de ser o governador das ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas. Coincidentemente, essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante a guerra. Astiz, com um copo cheio de uísque na mão, assinou a rendição rapidamente, sem disparar um único tiro. Astiz foi conhecido por diversos apelidos: "El Cuervo" (O Corvo) e "El Angel Rubio" (O anjo loiro) foram os mais famosos entre seus cúmplices e os torturados. Na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), Astiz reunia os prisioneiros e realizava longas dissertações sobre a inferioridade racial dos africanos, entre outros assuntos. Somente 47 presos da ESMA sobreviveram de um total de 5 mil que ali foram torturados. A personalidade doentia de Astiz fica evidenciada pelo relato de uma das torturadas, Sara Osatinsky. "Em uma ocasião, Astiz saiu de férias, mas voltou quatro dias depois, pois havia descoberto que não podia compartilhar suas atividades com os amigos. Por isso passou o resto de suas férias na ESMA, concosco", contou. Os relatos indicam que enquanto os outros repressores somente ficavam na ESMA o tempo suficiente para o "trabalho", Astiz desfrutava do cheiro de urina e fezes que emanava das celas, além dos gritos dos torturados. Com 50 de idade, Astiz é um dos ex-repressores mais jovens da Ditadura. Alto, loiro e solteiro, ao longo dos anos 90 era visto com freqüência em discotecas. Mas, por ser reconhecido facilmente, Astiz também foi alvo de freqüentes socos e cusparadas dos jovens que dançavam nesses lugares.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.