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EFE/John Taggart
Bandeira dos confederados, hasteada ao lado do Capitólio da Carolina do Sul EFE/John Taggart

Símbolos de ódio, resistência e poder

Bandeiras, estátuas, hinos e gestos: a batalha ideológica para manter ou reescrever a história 

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2015 | 02h03

Marcas registradas de regimes duram até que uma revolução as condene ao ostracismo. Alguns símbolos, porém, sobrevivem, apesar dos protestos, como é o caso da bandeira de guerra dos Estados Confederados da América, estigma da escravidão nos EUA, que se tornou alvo de ativistas depois que o supremacista branco Dylann Roof matou nove negros em uma igreja da Carolina do Sul, em junho.

Quando a "Prinsevlag", a bandeira tricolor do apartheid, baixou pela última vez do mastro do Parlamento sul-africano, em abril de 1994, passou a ser um símbolo de resistência para os supremacistas brancos no mundo inteiro - Dylann Roof apareceu em fotos usando uma jaqueta preta com a velha bandeira da África do Sul. Hoje, na democracia sul-africana, ela não é proscrita, mas muitos a consideram um símbolo ofensivo.

Outras bandeiras também provocam paixão e ódio. A da Rússia imperial nunca desapareceu das mãos de nacionalistas e renasceu após a anexação da Crimeia e da crise na Ucrânia. Em resposta ao isolamento internacional, o deputado Mikhail Degtyaryov, do Partido Liberal-Democrata da Rússia, luta para colocá-la definitivamente tremulando no Kremlin.

A importância do tema teve impacto do outro lado da fronteira. Em abril, o Parlamento ucraniano baniu todos os símbolos soviéticos e tornou crime a apologia ao comunismo. A nova lei pune com até 5 anos de prisão quem for surpreendido cantarolando a Internacional - se a cantoria for em grupo, são 10 anos de cadeia.

O esforço para livrar-se do passado soviético, no entanto, tem um preço. Em Izmail, por exemplo, perto de Odessa, a Avenida Lenin termina a um quarteirão da Rua Lenin, que leva à Praça Lenin. Segundo estimativa do Banco Mundial, o PIB da Ucrânia deve encolher 7,5% em 2015 e ninguém sabe como pagar pela troca de milhares de estátuas, praças, mapas e placas de rua.

Curiosamente, a tentativa mais radical do último século de restringir o imaginário popular não teve relação com o revisionismo histórico, mas surgiu, ao contrário, da necessidade de não esquecer o passado. A desnazificação dos anos 40 impôs ao código penal alemão um artigo que proíbe o "uso de símbolos de organizações inconstitucionais", que inclui bandeiras, emblemas, uniformes e até gritos e gestos, como o "Heil Hitler", saudação nazista ao Führer.

Símbolos sempre foram cruciais para manter o poder. Winston Smith, protagonista do romance 1984, de George Orwell, era um funcionário do Ministério da Verdade encarregado de alterar fatos e reescrever a história. Ele revisava textos, destruía documentos e retocava fotos em nome do partido, exatamente como fazia Josef Stalin na União Soviética pós-revolucionária.

Na Roma Antiga, o trabalho de Smith era descrito pelo termo "damnatio memoriae" (condenação da memória, em latim), frase usada para punir traidores, confiscar suas propriedades, apagar seus nomes e reutilizar suas estátuas. No século 1.º d.C., a condenação ao esquecimento foi emitida contra Calígula, Nero e Domiciano, que teve suas estátuas fundidas e seu nome apagado dos registros públicos.

A estratégia de condenar ao ostracismo tornou-se mais comum após a troca de guarda em altas esferas do poder. Na Argentina, depois do golpe militar de 1955, um decreto do general Pedro Eugenio Aramburu proibiu o peronismo, suas ideias, símbolos e baniu até a simples menção ao nome de Juan Domingo Perón. Em 2011, no Egito, após os protestos que derrubaram o governo, o nome do ditador Hosni Mubarak também foi apagado de todos os monumentos.

O tempo passou, mas nem tudo mudou. Na Carolina do Sul, a governadora Nikki Haley aguardava apenas o fim do recesso legislativo para aposentar a bandeira confederada com a lei que foi sancionada ontem. Alguns congressistas estaduais, porém, lutaram até o fim pelo que consideram um símbolo da identidade sulista. Para alguns, a luta continua.

No dia 18, os Leais Cavaleiros Brancos, grupo ligado à Ku Klux Klan, fará um protesto em favor da bandeira diante da sede do governo, em Columbia. "É verão, está calor e o mundo está de olho. A coisa pode piorar. Se não agirmos logo, teremos problemas", prevê o deputado estadual Todd Rutherford.

 

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No Brasil, uma vitória da tradição

Em 15 de novembro de 1889, o Brasil quis romper com a monarquia, associada ao atraso e à escravidão. Os republicanos, porém, tinham muitas ideias, mas poucos símbolos. No livro Formação das Almas, o historiador José Murilo de Carvalho conta a história de um sargento do 2.º Regimento de Artilharia de São Cristóvão que jogou fora a bandeira imperial quando as tropas marcharam para o golpe militar no Campo de Santana, no Rio, e ficou sem nada para segurar.

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2015 | 02h03

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