John MACDOUGALL / AFP
John MACDOUGALL / AFP

Símbolos nazistas voltam aos videogames na Alemanha depois de 20 anos de proibição

Apresentado na feira de jogos eletrônicos Gamescom, 'Através dos Tempos Mais Sombrios' é o primeiro jogo autorizado a exibir suásticas e a saudação nazista desde 1998 por órgão regulador do país; decisão divide sociedade alemã

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2018 | 12h52

COLÔNIA, ALEMANIA - As suásticas e a saudação nazista, proibidas na Alemanha por muitos anos por serem considerado símbolos perigosos para as crianças, começaram nesta semana a aparecer em jogos de vídeo game do país em nome da liberdade artística, uma mudança que suscita críticas. 

Apresentado na feira maior feira de jogos eletrônicos da Europa, a Gamescom, realizada em Colônia, Through the Darkest of Times (Através dos Tempos Mais Sombrios, em tradução livre) é o primeiro jogo que será vendido no país desde 1998 que mostra sem filtro ou artifícios o período do nazismo.

O jogador controla um membro da resistência ao nazismo durante a 2ª Guerra. Seus inimigos do Terceiro Reich estão claramente identificados: as suásticas substituem os triângulos petros em fundo vermelho que foram usados até agora em jogos do tipo, e você também pode ver as saudações nazistas e até mesmo Adolf Hitler, que nunca havia sido chamado por seu nome real em jogos.

"(Antes) como os desenvolvedores temiam falar dele, inventavam coisas fantasiosas. Hitler era chamado de Heiler e não tinha bigode. Não havia judeus, mas sim traidores. É problemático porque se oculta todo um aspecto da história", explicou Jorg Friedriech, co-desenvolvedor do jogo.

Liberdade Artística

Este tabu foi quebrado pela primeira vez em agosto. Pressionada pela indústria e pelos jogadores, a autoridade independente de regulação alemã (USK, em alemão) deu ao setor os mesmos direitos que já tinham os produtores de peças teatrais ou filmes.

"Os jogos que abordarem de forma crítica os acontecimentos passados podem se beneficiar pela primeira vez de uma aprovação em razão da liberdade artística", declarou uma responsável da USK, Elisabeth Secker.

Depois  de uma decisão da Justiça de 1998, os jogos eletrônicos deixaram de ter o direito de incluir esses elementos na Alemanha, já que os juízes temiam naquela época que as crianças "cresceriam com esses símbolos e se acostumariam com eles".

"É um passo que não temos porque ocultar já que também pode ser uma forma de chamar atenção (deste público)", considera Michael Schiessl, um visitante da Gamescom.  

A decisão de permitir esses símbolos em videogames, no entanto, não agradou a todos na Alemanha. "Não se brinca com as suásticas", criticou a ministra alemã da Família, Franziska Giffey, em entrevista publicada pelo grupo de imprensa Funke. "(Os alemães) devem continuar tendo consciência de sua responsabilidade histórica."

"Como você quer explicar para os jovens que acabaram de jogar 'Call of Duty' - uma das principais franquias de jogo de guerra do mundo - que ali podem içar a bandeira com a suástica, mas não podem pintá-la na parede de uma casa sem acabar em um tribunal?", questiona Stefan Mannes, redator-chefe de um portal alemão de notícias sobre o Terceiro Reich chamado "O Futuro Precisa de Memória".

Normalização

Klaus-Peter Sick, historiador do centro Marc-Bloch de Berlim, rechaça esses argumentos. "O jogador é inteligente e sabe diferenciar (ente a ficção e a realidade)", garante. "Não há risco: uma pessoa não vai se converter em nazista por ver uma suástica!"

Além disso, a USK não pretende conceder uma autorização geral para o uso dos símbolos. Ao contrário. Estudará cada caso para saber se a presença da identidade nazista no jogo é "socialmente adequada".

Sick considera que essa decisão é mais um sinal da "normalização" da relação que a Alemanha tem com seu passado. "Esta sociedade pode ler Mein Kampf sem ter nostalgia (...) Os nazistas convencidos morreram. É uma questão de geração: a sociedade se transformou e se situa agora longe de uma época para a qual não quer regressar", afirma o historiador.

Nos últimos anos, vários tabus relacionados à Alemanha nazista caíram. Filmes como Mein Führer: Die Wirlich Wahrste Wahrheit über Adolf Hitler (Meu Führer - A verdade realmente mais verdadeira sobre Adolf Hitler, em tradução livre), de 2007, ou Heil, de 2015, chegaram aos cinemas e o livro satírico Er ist wieder da (Ele está de volta, em tradução livre), de 2012, se tornou um sucesso de vendas.

Recentemente, as autoridade do país também permitiram a reedição de uma versão comentada de Mein Kampf, livro escrito por Hitler. / AFP

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