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Sinais confusos de Kiev

Zelenski, novo presidente da Ucrânia, apresenta discurso indecifrável e contraditório

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 05h00

A Ucrânia elegeu um novo presidente, cinco anos depois das revoltas populares da Praça Maidan. Os resultados da eleição, embora previstos, surpreenderam por sua nitidez: o presidente de saída, o detestável Petro Poroshenko, foi esmagado por um jovem humorista que jamais fez política, Volodmir Zelenski.

A Ucrânia elegeu um desconhecido. Melhor ainda, um enigma, porque esse óvni político, que é Zelenski, não disse a que veio. Pior ainda, as poucas declarações feitas por esse sujeito simpático e risonho são contraditórias. À pergunta fundamental se a Ucrânia vai se aproximar da Rússia, as respostas são variadas, segundo os discursos. Às vezes sim, outras não.

E nem Vladimir Putin, que é um homem perspicaz e dá uma importância extrema à eleição na Ucrânia, conseguiu decifrar a nuvem de evidências e contradições que envolve o programa do novo presidente. E até confessou sua impotência, o que não é do seu estilo, adiantando que Moscou não vai reagir de imediato e aguardará até ver mais claramente os fatos nesse jogo de sombras que se instala em Kiev.

Uma única certeza : Zelenski lançará uma luta sem piedade contra os corruptos, ou seja, contra a quase totalidade dos políticos e membros do governo. Uma série na qual ele interpreta um comediante que de repente se tornou presidente contém uma cena que se tornou cult. Nela, vemos o personagem representado por Zelenski atirando contra os deputados corruptos em pleno Parlamento. Pode ser um método eficaz, mas que os humanistas de esquerda e de direita desaprovarão.

O cientista político Iuri Romenko, do Instituto do Futuro, escreve que “se decidir realmente agir, Zelenski se defrontará com o Estado profundo ucraniano, que é bem mais poderoso do que o Estado profundo americano que luta contra Trump”.

Como não é possível decifrar um programa jamais divulgado (talvez inexistente), os especialista se conformam em se interrogar sobre os homens dos quais o novo presidente vai se cercar. A maioria deles é desconhecida. Mas há um que aparece insistentemente e mais confunde do que esclarece a figura de Zelenski. É o oligarca ucraniano Igor Kolomoiski, inimigo terrível do presidente de saída. 

Kolomoiski seria o maestro oculto da carreira meteórica de Zelenski. Bilionário, é um dos oligarcas mais ativos da Ucrânia pós-soviética, que adota métodos um tanto rudes. Entre suas façanhas, é acusado de ter surrupiado US$ 5 bilhões dos cofres do seu antigo banco, o Privat Bank. Está exilado em Israel, mas já avisou que se prepara para retornar ao país.

Em todo o caso, sabe-se que ele e Zelenski se conhecem há muito tempo e Kolomoiski deu um forte apoio a Zelenski durante sua campanha presidencial: um amplo espaço no canal de TV I+I, que pertence ao oligarca, carros, guarda-costas e advogados que fazem parte da oligarquia.

Inútil dizer que o presidente humorista nega todas essas acusações e suspeitas. Entretanto, a influente Fundação Renascença insiste: “Os membros do júri, cuja integridade é duvidosa, que delicadamente deliberaram sobre o Privat Bank, sentiram que o poder escorregava das mãos de Petro Poroshenko e buscaram um novo mestre”. 

Mas outros nomes de homens e mulheres que repentinamente manifestaram amizade extrema por Zelenski despertam atenção. Em primeiro lugar está Yulia Tymoshenko, ainda uma oligarca, que já foi primeira-ministra, ficou doente e agora ressurge. A eleição de Zelenski é uma sorte para a Ucrânia” afirmou a ex-premiê. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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