Sinal promissor de Pyongyang

Em recente visita à Coreia do Norte, o regime de Kim Jong-il indicou que quer retomar o diálogo nuclear e de paz

JIMMY CARTER / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Durante minhas recentes viagens à Coreia do Norte e à China, recebi claros e consistentes sinais de que Pyongyang queria retomar as negociações de um tratado de paz abrangente com os Estados Unidos e a Coreia do Sul, e de um pacto de desnuclearização da Península Coreana.

Os componentes deste acordo têm sido razoavelmente constantes nos últimos 16 anos, confirmados primeiramente em 1994 pelos EUA e por Kim Il-sung, então o líder norte-coreano, e reiterados por um acordo multilateral negociado em setembro de 2005.

As cláusulas básicas estabelecem que: o antigo reator de energia nuclear da Coreia do Norte, que pode facilmente produzir plutônio para armas, e todas as instalações e produtos respectivos, teriam de ser inutilizados sob a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica; os EUA devem fornecer óleo combustível ou energia elétrica à Coreia do Norte até que sejam construídas novas usinas de força; os EUA devem fornecer garantias contra a ameaça de ataque nuclear ou outras ações militares contra a Coreia do Norte; os EUA e a Coreia do Norte devem avançar na normalização das relações políticas e econômicas e um tratado de paz para toda a península; a melhoria das relações deve ser buscada pela Coreia do Norte, a Coreia do Sul e o Japão.

O acordo concluído pelo governo Bill Clinton não foi reconhecido pelo presidente George W. Bush em 2002. Mas, embora a Coreia do Norte tenha Testado uma bomba nuclear em 2006, houve um progresso considerável em suas conversações com EUA, Coreia do Sul, China, Japão e Rússia.

Mas, desde então, as condições deterioraram-se. As conversações pararam em 2009, e no mesmo ano a ONU impôs sanções a Pyongyang, após o país realizar um segundo teste nuclear e lançar um míssil de longo alcance. As tensões aumentaram este ano quando a Coreia do Norte prendeu um americano, que acusou de invadir seu território, e a tripulação de um pesqueiro sul-coreano, em agosto.

Mas agora há sinais claros da boa vontade de Pyongyang em retomar as negociações e aceitar as cláusulas básicas da desnuclearização e os esforços de paz.

Em julho, as autoridades norte-coreanas convidaram-me para um encontro com o líder norte-coreano, Kim Jong-il, e outros funcionários, a fim de garantir a libertação do americano.Em Pyongyang, pedi a libertação do americano e tive de esperar 36 horas para sua soltura. Neste meio tempo, estive com Kim Yong-nam, presidente do Parlamento do Norte, e Kim Kye-gwan, o vice-chanceler e principal negociador da Coreia do Norte.

Eles compreenderam que eu não tinha um status oficial e não poderia falar em nome do governo americano, portanto ouvi suas propostas e entreguei a mensagem a Washington. Eles disseram que pretendiam ampliar as boas relações que haviam se desenvolvido no início da década com o então presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-jung, e o premiê japonês, Junichiro Koizumi.

E expressaram preocupação com as ações recentes dos EUA, entre elas as sanções injustificadas, a inclusão ostensiva da Coreia do Norte entre as nações sujeitas a ataques nucleares. Mas afirmaram que estavam dispostos a demonstrar seu desejo de paz e desnuclearização.

Em Pequim, os líderes chineses me informaram que Kim lhes havia exposto os mesmos pontos e agora promovem ativamente a retomada das conversações entre os seis.

Um acordo a respeito da Península Coreana é crucial para a paz e a estabilidade na Ásia, e está atrasado. Estas mensagens positivas da Coreia do Norte devem se traduzir em medidas rápidas, e todos os passos do processo devem ser total e cuidadosamente confirmados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-PRESIDENTE DOS EUA

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