Pedro Pardo/AFP
Pedro Pardo/AFP

Sinaloa não tem ilusões de mudanças após condenação de 'El Chapo'

Moradores do estado mexicano que dá nome ao cartel comandado por 'El Chapo' atribuem ao narcotraficante a realização de obras públicas, e acreditam que a sentença 'injusta' reflete a projeção exagerada dada ao caso

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2019 | 21h33

CULIACÁN, MÉXICO - Um ar de sarcasmo toma conta do Estado mexicano de Sinaloa, berço do lendário narcotraficante mexicano Joaquín "El Chapo" Guzmán, sentenciado à prisão perpétua nos Estados Unidos nesta quarta-feira, 17. 

Moradores desta região árida na costa oeste do México asseguram com sorrisos de indignação que nem a violência ou o tráfico de drogas diminuirão. No imaginário popular de Sinaloa, um cartel que surgiu na década de 80 e leva o nome do Estado do noroeste mexicano ainda tem presente a figura de "El Chapo" e de seu ex-sócio Ismael "El Mayo" Zambada, que está foragido.

Diante dos testemunhos que dão calafrios, expostos durante o histórico julgamento e a sentença à prisão perpétua, além de 30 anos adicionais, imposta nesta quarta por um juíz em Nova York, além do pagamento de uma indenização de US$ 12,6 bilhões, alguns em Sinaloa continuam acreditando que "El Chapo" foi o responsável pela construção de escolas, igrejas, estradas e, em suma, foi um benfeitor.

Majoritariamente, os sinaloenses não lhe atribuem a responsabilidade por assassinatos e sequestros. "Eu acredito que não (foi justo). Ele também foi uma pessoa boa, que ajudou os necessitados", disse à Agência France Press Lupita Ramos, uma dona de casa de 46 anos, ao saber da notícia. A mulher fala diante do altar do mítico Jesús Malverde, conhecido como "O Santo dos Narcos", um lugar repleto de fotografias e bilhetes de agradecimentos, no centro da capital do Estado, Culiacán. 

Ao lado de um busto de Malverde, que segundo a lenda era um bandido que roubava dos ricos para dar aos pobres ao estilo Robin Hood, uma mulher limpava, na terça-feira, uma estatueta de gesso de Guzmán com um fuzil AK-47 em riste, vestido com uma camisa rosa e calça azul.

Para o ferroviário Juan Antonio Orozco, de 39 anos, o tráfico de drogas não vai acabar com a prisão perpétua de Guzmán. "Acho difícil que acabe... cai um e surge outro, são coisas que nunca acabam", diz enquanto aguarda do lado de fora da capela. "Parecia" que essa seria a sentença, "por todo o tráfico ocorrido, e as mortes e tudo o mais, era de se esperar que os Estados Unidos" queriam esse fracasso, afirma cabisbaixo, mas logo levanta um pouco a voz para dizer que, em Culiacán, "o respeitam porque ele ajuda as pessoas".

Mas, apesar das supostas obras públicas em Sinaloa impulsionadas por "El Chapo", que segundo a justiça americana deveria ter pelo menos US$ 12 bilhões em seus cofres, a desigualdade é impactante. Próximo a casebres feitos com tábuas de madeira, encontra-se o cemitério Jardines de Humaya, onde muitos narcotraficantes estão enterrados. É famoso pelos mausoléus extravagantes que chegam a ter até três andares, ar condicionado e portas de vidro blindado.

Aqui, uma fachada de pedra bege decora o túmulo de Ernesto Guzmán, um dos irmãos de "El Chapo", cujo interior está repleto de balões e flores. Dois pequenos carrinhos de pedra decoram os cantos das cornijas. Segundo Miguel Ángel Vega, jornalista do jornal semanal local Ríodoce, com a prisão e extradição do narcotraficante que protagonizou duas fugas espetaculares de presídios mexicanos, a violência e o tráfico de drogas "não acabaram", e sua sentença de prisão perpétua não mudará isso. 

Dois corpos apareceram nesta quarta-feira ao lado do Rio Culiacán, perto de uma estrada desta cidade com cerca de 700 mil habitantes. "O cartel de Sinaloa não é o Chapo, o cartel de Sinaloa não é El Mayo, o cartel de Sinaloa é um grupo de pelo menos 20 líderes", observa Vega, especialista em narcotráfico. "Em Culiacán existem 20 Chapos, e um deles está lá (preso nos EUA). Mas é como um bode expiatório, como ele é quem está lá e quem se exibiu e sobre quem foi falado pelos meios de comunicação que é o responsável por tudo isso, que é o responsável pelos jovens dos Estados Unidos que consomem drogas", seu processo foi mais explorado midiaticamente, diz. 

Joaquín "El Chapo" Guzmán fincou-se como uma lenda, alimentada pelos narcocorridos, gênero musical mexicano que exalta narcotraficantes. Eles relatam seus talentos e riquezas publicadas na revista Forbes, que em 2011 incluiu "El Chapo" em sua lista das maiores fortunas do mundo, com mais de US$ 11 bilhões. Dois anos depois, a Comissão Anticrime de Chicago o nomeou o inimigo público número 1 da cidade, comparando-o com Al Capone, enquanto se transformou no narcotraficante mais procurado pela DEA, agência federal americana responsável por crimes com narcóticos. 

O mito segue crescendo. Na véspera da audiência da sentença, ao lado da capela, um homem calçando sandálias com pés queimados pelo sol e calos, assegurou que o homem que foi extraditado em janeiro de 2017 aos Estados Unidos não é "El Chapo". "Ele tem muito dinheiro, pode fazer o que quiser, até mesmo pagar um ou dois dublês... O que eles têm lá não é ele, o verdadeiro Joaquín Guzmán deve passar andando agorinha por aqui", afirmou o camponês sorridente, antes de partir sem dar seu nome. / AFP

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