Sindicatos exigem fim dos superpoderes de Cavallo

Antes mesmo da greve geral de 24 horas decretada pelas principais centrais sindicais argentinas para amanhã, o centro de Buenos Aires deve transformar-se hoje em um verdadeiro caos. A CGT (Central Geral dos Trabalhadores) dissidente, do caminhoneiro Hugo Moyano, vai se concentrar em frente ao Congresso Nacional a partir das 15h (16h de Brasília) para pedir a deputados e senadores a suspensão imediata dos superpoderes concedidos ao ministro Domingo Cavallo. Antes, porém, os funcionários públicos congregados na Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE), que faz parte da CTA (Central do Trabalhadores Argentinos) vão sair às ruas por volta do meio dia e se concentrar, às 13h (14h de Brasília), em uma avenida próxima ao Obelisco, um dos principais cartões postais de Buenos Aires, e, depois, caminhar em direção ao Ministério de Economia. Avenidas e ruas devem ser cortadas, já que se espera a adesão de milhares de pessoas, no maior protesto que o governo De la Rúa deve enfrentar em dois anos de governo. IlegalidadeO governo informou que está estudando se decreta ou não a ilegalidade da greve de quinta-feira, mas os sindicalistas não estão preocupados e muito menos com medo da ameaça. Os sindicalistas apostam no sucesso da greve e nem mesmo asseguram que os serviços públicos essenciais serão cumpridos. A idéia das centrais sindicais é paralisar o país em protesto contra a política econômica do governo, que mergulhou o país no quarto ano de recessão e aumentou o desemprego a taxas próximas de 18% e de 19% na Grande Buenos Aires. Isso significa que, na Argentina, sem considerar a população rural, já existem aproximadamente 2,5 milhões de desempregados, cerca de 500 mil a mais do que no ano passado. Desse número de argentinos sem trabalho, mais de 1 milhão moram na Capital. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o desemprego na gestão de Fernando de la Rúa cresceu em quase 700 mil pessoas, o que equivale à demissão de quase mil trabalhadores por dia desde dezembro de 1999, quando De la Rúa assumiu a presidência. Em outubro de 99, dois meses antes de De la Rúa assumir, o número de desempregados no país era de 1,83 milhão. Apesar desse números, o ministro de Trabalho, José Gabriel Dumón, disse ontem à noite que a greve não reivindica questões e direitos trabalhistas, mas tem apenas objetivos políticos. ?Os assalariados que ganham menos de mil pesos (US$ 1 mil) representam 86% e as duas CGTs estão convocando uma greve para os 14% restantes?, disse o ministro, tentando justificar a postura do governo contrária à greve. FilasA CGT disse hoje cedo que será um ?disparate?(besteira) se o governo declarar a greve ilegal, ?quando ilegais são os decretos inconstitucionais que congelaram os salários dos trabalhadores nos bancos?. Desde o dia 3, os argentinos têm feito filas intermináveis para sacar o limite estabelecido pelo governo (US$ 250,00 por semana ou US$ 1 mil por mês para evitar a quebradeira dos bancos) e para pagar contas que só podem ser feitas onde é correntista. A imagem das filas nas agências continua sendo a mesma que circulou na semana passada em todos os meios de comunicação do mundo. O desespero, o cansaço, o nervosismo e a falta de esperança são visíveis no rosto dos argentinos. ?Enquanto faço fila para ver o que ocorre com meu dinheiro, os políticos estão roubando?, disse um argentino na fila de um banco na city, centro financeiro de Buenos Aires. EscamboA falta de dinheiro no país desde o início de dezembro é tão significativo que aumentou a adesão das pessoas à Red Global de Trueque Solidario (rede global de escambo solidário). Nos 800 clubes que se encontram espalhados por 20 províncias (Estados), o número de sócios deve quadruplicar em relação a março deste ano, quando Domingo Cavallo assumiu o Ministério de Economia. Desde então, o número de adesões aos clubes passou de 10 mil para 20 mil por mês. Mas desde o congelamento parcial dos depósitos, no dia 3 de dezembro, as solicitações passaram para um ritmo alucinante e espera-se que chegue a 40 mil por mês, cifra recorde em sete anos de existência dessa rede. Se esse número de adesão for confirmado, até o final do ano serão pelo menos 500 mil argentinos sobrevivendo por meio do escambo, prática utilizada alguns séculos atrás.O escambo se faz em feiras gigantes, montadas em clubes ou campos de futebol, praça e ruas do país. Cada novo sócio da rede recebe 50 créditos para começar a trocar bens ou serviços. Chamados de ?prosumidores?, a contração de produtores e consumidores, esses argentinos quase que deixam o sistema de escambo em colapso na última semana por causa da falta de dinheiro, já que os trabalhadores mais afetados tiveram de se dirigir até os clubes de escambo em busca das suas necessidades. Esse novo termômetro de vida foi confirmado ontem, com a divulgação de uma pesquisa que mostra que o consumo (compra de alimentos, bebidas, roupa e outros artigos de consumo maciço) deve cair este ano 10%. De acordo com o escritório de consultoria CCR, a venda de produtos não alimentícios deve encerrar o ano com queda de mais de 20%.

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