Bob Edme/AP Photo
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Sindicatos franceses mantêm greve e rejeitam trégua pedida por premiê

Organizações consideram que governo 'ultrapassou linha vermelha' com propostas sobre aposentadoria, em especial o aumento da idade mínima para obter o benefício integral, e prometem manter a mobilização

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2019 | 10h45

PARIS - A França entrou nesta quinta-feira, 12, no oitavo dia de greve contra a reforma da previdência anunciada pelo governo do presidente Emmanuel Macron e os sindicatos pediram a ampliação do movimento, ao mesmo tempo que negaram a possibilidade de uma "trégua de Natal".

Para Entender

O sistema de Previdência social igual para todos proposto por Macron

Reforma é a mais audaciosa da agenda social do presidente francês para este ano e busca extinguir as distorções que beneficiam vários setores; em contrapartida, não haverá aumento da idade de aposentadoria, hoje fixada em 62 anos

"A greve continua e lamentamos porque não havíamos previsto desta maneira. Percebemos que o governo não dá o braço a torcer e isto vai durar algum tempo. Não haverá trégua de Natal, exceto se o governo encontrar a razão", afirmou o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) - principal sindicato dos trabalhadores ferroviários -, Laurent Brun, à rádio France Info.

A rejeição da proposta que o governo fez pelos sindicatos sinaliza que os líderes trabalhistas falam sério quando dizem considerar uma "duração ilimitada" da greve e da mobilização.

Os grevistas tentam repetir a mobilização de 1995, que durou mais de três semanas, levou à renúncia do primeiro-ministro Alain Juppe e terminou com a proposta de reforma previdenciária descartada. As greves daquele ano foram comparadas em escala aos eventos de maio de 1968, quando a França chegou à beira de uma revolução.

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, anunciou na quarta-feira o projeto integral de reforma da previdência, que pretende unificar os 42 regimes diferentes do país em um sistema único. O chefe de governo afirmou que com a mudança "todo mundo sairá ganhando". 

O governo mantém o plano, uma das promessas eleitorais de Macron, mas aceitou flexibilizar alguns pontos após os protestos da última semana. As concessões, no entanto, não foram consideradas suficientes pelos sindicatos, que desejam intensificar a greve.

"Minha porta está aberta, minha mão está estendida", declarou Philippe. Ele disse acreditar que os anúncios do governo são suficientes para acabar com a paralisação no país.

Mas os sindicatos consideraram que o governo "ultrapassou uma linha vermelha" com os anúncios sobre a aposentadoria, um tema muito delicado na França, sobretudo para alguns setores, como os trabalhadores do sistema de transportes e algumas profissões de risco.

O governo quer evitar a qualquer custo uma nova crise social, após a mobilização dos "coletes amarelos", movimento de protesto que surgiu há um ano e provocou uma forte queda de seu nível de popularidade. 

Por isso, tentou estender a mão novamente aos sindicatos. "Há espaço para negociação", disse o ministro da Economia, Bruno Le Maire.

Uma das questões que mais enfurece os trabalhadores é o aumento para 64 anos da idade mínima para obter a aposentadoria integral. Atualmente, a idade legal mínima de aposentadoria é 62 anos e continuará sendo, mas com direito a uma pensão menor.

O governo contempla apresentar o projeto de lei sobre a reforma no conselho de ministros de 22 de janeiro, antes de enviar o texto ao Parlamento no fim de fevereiro.

Cidades mobilizadas

Na manhã desta quinta-feira, em cidades como Paris a grande maioria dos transportes públicos não funcionavam e os poucos que circulavam estavam lotados. O centro da capital estava em colapso com o grande número de veículos particulares e as centenas de cidadãos que tentavam chegar aos locais de trabalho a pé ou de bicicleta.

O clima entre a população permanece tenso, mas compreensivo. "Entendo perfeitamente por que as pessoas estão em greve... Obviamente, todos são afetados pela reforma da previdência", disse Nicolas Lipitei, que viajaria de Paris para Londres.

"(Mas) acho que deveria haver melhores condições para quem tenta ir ao trabalho. Há um enorme impacto na economia, um enorme impacto na vida das pessoas em geral", acrescentou.

Em outras cidades o clima era de tensão. A polícia disparou gás lacrimogêneo na manhã desta quinta-feira contra manifestantes na cidade de Nantes, no oeste, e os manifestantes incendiaram veículos na cidade portuária de Marselha, no Mediterrâneo.

O porto de Le Havre, no noroeste, o segundo maior da França, amanheceu bloqueado por quase mil manifestantes, segundo a polícia. "Bloqueamos os oito pontos principais (de entrada). Vamos continuar aqui o dia todo", disse Sandrine Gérard, do sindicato CGT.

Em Paris, assim como em outras grandes cidades do país, passeatas estão programadas para esta quinta e um novo dia de mobilização nacional foi convocado para 17 de dezembro, o terceiro em menos de duas semanas. / AFP e AP

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