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Na França, sindicatos tentam retomar brilho

Após ‘coletes amarelos’, sindicalistas levam às ruas seu know-how de 150 anos de lutas

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 09h00

Na terça-feira, as ruas se encherão novamente de “idosos” furiosos de que suas pensões, segundo acreditam, estejam ameaçadas. O governo diz que fará algumas concessões. Mas ele não dirá nada até a próxima semana, na melhor das hipóteses, quando terá uma ideia mais clara do campo de batalha e da força deste enorme exército de descontentes que inclui bombeiros e enfermeiras, hospitais, universidades, velhos e jovens, mulheres, homens.

O Eliseu entendeu que o alvo desse velho ritual caro à França, renovado como está, é realmente a pessoa de Macron. A mágica se desvaneceu e o jovem príncipe encantado se transformou depois de 18 meses de poder absoluto. Ele governa a França como todos aqueles que substituiu, com truques, promessas, pactos secretos, meias-verdades, discursos brilhantes e diabolicamente didáticos. “O ouro se transformou em reles chumbo."

Conseguirá ele recuperar a graça perdida? Nada é impossível, pois o homem é talentoso. Mas nada é tão difícil, tanto na política quanto no amor, como ressuscitar o milagre perdido.

Neste início da vasta revolta que se está formando, um detalhe certamente encantou o establishment: a presença dos descontentes nas ruas prosseguiu em ordem. O motivo é claro: os sindicatos tradicionais estavam no comando, especialmente a CGT.

Ela emprega um talento, um know-how aperfeiçoado em 150 anos de lutas, muitas vezes terríveis, com os proprietários, industriais e políticos. Os líderes sindicais são profissionais. Se alguns idiotas atacam os gendarmes, surgem os fortes da CGT e os “encrenqueiros” retornam para seus buracos.

Os sindicatos na França perderam muitos membros nos últimos anos e também sua influência. Mas as manifestações que começam podem dar a eles a chance de restaurar sua imagem.

Especialmente porque, na visão deles, havia, além dos objetivos tradicionais – os políticos, os ricos, a capital –, um rival de uma nova espécie: os “coletes amarelos”, esses trabalhadores mal-amados quase invisíveis, que nem se conhecem, quase de “fora da sociedade”.

Pois bem, essas pessoas sem organização, sem líderes, que mal sabem o que reivindicam, semearam tanto caos no maquinário macroniano em 2018 que Macron estava com medo. Mas ele ouviu os gritos dos “coletes amarelos” e distribuiu uma ajuda de € 17 bilhões, uma soma gigantesca em um país como a França.

O surgimento inesperado dessas “redes amarelas” e sua eficácia causaram um golpe brutal aos sindicatos tradicionais, é claro, mas também aos formuladores de políticas.

Por isso, durante todo o ano passado, eles foram o pesadelo de Macron, mas ao mesmo tempo o dos sindicatos tradicionais. As manifestações de ontem, hoje e provavelmente de amanhã marcam um retorno a esse “velho mundo” que o jovem e lírico Emmanuel Macron jurou derrubar e substituir por um “novo mundo” do qual ele seria o inventor e o mecânico.

Hoje, após esse ano exaustivo de “coletes amarelos”, retornamos, por um tempo, pelo menos, às rotinas e lutas bem ajustadas do “velho mundo”, das quais conhecemos todo o mecanismo e engrenagens, as táticas e códigos, o software.

Assim, ante uma inversão bizarra das coisas, os sindicatos tradicionais encontram um pouco do brilho que perderam quando esses engraçados “coletes amarelos” irromperam há um ano na luta política. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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