Sindicatos saem às ruas contra Cristina

Trabalhadores que se opõem ao governo exigem melhores salários e menos impostos; analistas veem luta pelo futuro do peronismo

MARINA GUIMARÃES , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h01

A presidente Cristina Kirchner enfrentou ontem um protesto organizado pelo setores rebeldes da Confederação-Geral do Trabalho (CGT) e da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) em Buenos Aires. Os sindicalistas cobraram melhores salários, reduções de impostos e criticaram o governo. Para analistas, o afastamento entre o kirchnerismo e essas facções é o início de uma luta interna peronista para a sucessão da presidente.

Segundo os sindicatos, a mobilização reuniu mais de 100 mil pessoas. Os líderes das duas principais centrais sindicais argentinas, Hugo Moyano e Pablo Micheli, também reclamaram da perda do poder aquisitivo diante da escalada da inflação, estimada pelos institutos privados em 25%. Os dados oficiais apontam alta de 10%.

"Senhora presidente, ocupe-se da inflação que corrói os salários. A senhora tem todas as armas para ocupar-se também da insegurança que preocupa os argentinos", disse Moyano. "Todos os preços aumentaram. Tudo aumentou e isso são as receitas mais ortodoxas do Fundo Monetário Internacional. Não necessitam ordens do FMI, o fazem por convicções próprias", declarou o sindicalista.

Ele também reclamou dos baixos valores das aposentadorias (US$ 384 ao mês) e da dívida do governo com os planos de saúde sindicais. O sindicalista mandou outra clara mensagem à Casa Rosada e ameaçou responder nas urnas a falta de atenção aos pedidos dos trabalhadores.

"Agora, porque levantamos as reclamações dos trabalhadores, dizem que é uma questão política. E por que não pode ser um tema político? Se as lutas sindicais não dão resultado, em 2013, temos a oportunidade de usar o voto", disse, referindo-se às eleições parlamentares de outubro para renovar metade da Câmara e um terço do Senado.

"Este protesto é para reclamar ao governo a mudança da tabela de impostos sobre os salários, a universalização dos planos sociais familiares e um aumento de emergência para os aposentados e planos de saúde dos sindicatos", disse ao Estado o presidente da União Argentina de Trabalhadores Universais e Estivadores (Uatre), Gerônimo Venegas, da CGT. "O lamentável é que o povo continua sem ser ouvido."

Micheli, por sua vez, ressaltou a unidade entre as centrais e diversos grupos políticos e sociais que aderiram ao protesto. "É tempo de unidade, de mostrar que em meio às diversidades podemos fazer algo juntos: deixar de lado as diferenças e brigar por nossas reivindicações."

As centrais acusam a presidente de ter se afastado dos princípios peronistas. Com uma lista ampla de reivindicações, a manifestação tentou capitalizar a insatisfação de parte da sociedade argentina com o governo. A popularidade de Cristina está em torno de 30%.

Moyano tem pretensões políticas e não nega desejar que "um trabalhador chegue ao poder", como ocorreu no Brasil, com Luiz Inácio Lula da Silva. Frequentemente, o líder sindical recorre ao exemplo de Lula para defender a construção de sua possível candidatura.

A passeata também criticou a batalha judicial entre o governo e o Grupo Clarín, a principal holding multimídia do país e crítico da presidente. "Alertamos porque a Corte Suprema tenta ter autonomia, mas o Poder Executivo insiste para seja emitida sentença em seu favor", disse Micheli.

Para o sociólogo argentino Enrique Zuleta Puceiro, o protesto de ontem foi importante no que se refere aos espaços internos de poder do peronismo. "Está se formando um cenário de sucessão no peronismo", disse ao Estado.

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