Síria cometeu crimes contra a humanidade, diz painel

Os militares e policiais da Síria cometeram "crimes contra a humanidade" na brutal repressão contra os manifestantes, disseram investigadores da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta segunda-feira. Provas reunidas pela Comissão Independente Investigadora na Síria constataram que forças do Estado sírio assassinaram, estupraram e torturaram manifestantes desde o começo da revolta contra o regime de Bashar Assad em meados de março.

AE, Agência Estado

28 de novembro de 2011 | 16h15

O painel entrevistou 223 vítimas e testemunhas, entre elas desertores do exército e da polícia, que relataram casos em que receberam ordens de atirar para matar e de crianças que foram torturadas até a morte pelos repressores, informa a agência France Presse (AFP).

"Esta comissão está gravemente preocupada com os crimes contra a humanidade que foram cometidos em diferentes lugares da República Árabe da Síria, durante o período de investigação", disse o relatório, o qual concluiu que os militares e policiais sírios foram os perpetradores da violência.

"A ampla escala e o padrão consistente dos ataques feitos pelos militares e as forças de segurança contra civis e bairros civis, além da ampla destruição de propriedades, só poderiam ter sido possíveis na escala em que foram com a total cumplicidade do Estado", disse o painel. Desertores do exército e da polícia disseram à comissão que receberam ordens diretas para atirar contra manifestantes desarmados sem nenhuma advertência.

Os soldados, ao lado de milícias, conduziram operações conjuntas com ordens "atirem para matar", na cidade de Latakia no começo de abril, em um subúrbio da cidade. "Os manifestantes só pediam por liberdade. Eles carregavam ramos de oliveira e marchavam com suas crianças", disse uma testemunha. "Nós recebemos a ordem de dispersar a multidão ou então eliminar quem pudéssemos, incluindo as crianças. Nós abrimos fogo", disse um desertor.

O painel ouviu relatos de francoatiradores que dispararam contra líderes de passeatas ou então contra pessoas que tentavam ajudar os feridos.

No Hospital Militar de Homs, ocorreram torturas e assassinatos de pacientes, conduzidos por militares vestidos de médicos. Já na prisão da Força Aérea da Síria, no Aeroporto de Mazzeh, perto de Damasco, ocorreram estupros e abusos descritos como "descontrolados".

O relatório coloca em evidência o caso de um adolescente morto de 14 anos, da cidade de Sayda, cuja autópsia mostrou feridas consistentes com a tortura. Um homem de 40 anos disse ao painel que testemunhou o estupro de um menino de 11 anos por três policiais.

A comissão afirma que o governo sírio violou o direito à vida, à reunião pacífica e à liberdade de movimento das pessoas, entre outras coisas.

O relatório pede ao governo do ditador Bashar Assad que coloque "um fim imediato às enormes violações dos direitos humanos" e lance investigações independentes sobre a violência.

O Conselho dos Direitos Humanos montou a comissão em agosto, para investigar as supostas violações dos direitos humanos na Síria, onde a ONU estima que pelo menos 3.500 pessoas já foram mortas desde março.

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