Síria deixa cúpula após crítica de líder egípcio

Na reunião dos Não Alinhados, Morsi censura regime iraniano por apoio a Assad

TEERÃ, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h02

Numa aparente censura ao Irã, aliado-chave da Síria, o presidente do Egito, Mohamed Morsi, afirmou ontem que o regime de Bashar Assad perdeu sua legitimidade e disse, na Conferência dos Países Não Alinhados, em Teerã, que o mundo tem de dar apoio aos rebeldes sírios.

Os delegados sírios presentes na conferência se retiraram da sala durante o discurso de Morsi. A fala do egípcio - nesta que é a primeira visita de um líder do Egito ao Irã desde a Revolução Islâmica, de 1979 - deixou exposta a profunda divisão entre o apoio incondicional do Irã a Assad e a crescente rede de poderes regionais que insiste na destituição do ditador sírio.

Morsi também reiterou as dificuldades enfrentadas pelo Irã como anfitrião de uma conferência das 120 nações do Movimento dos Não Alinhados, grupo formado durante a Guerra Fria que Teerã deseja transformar num bloco poderoso para desafiar a influência ocidental.

Segundo os líderes iranianos, a reunião deixa à mostra a incapacidade do Ocidente de isolar o país em razão do seu programa nuclear.

Mas o Irã teve de aceitar, a contragosto, as críticas ácidas de um participante do mais alto escalão.

O discurso de Morsi encostou o Irã ainda mais na parede. Na verdade, ele pediu ao país para juntar-se ao grupo cada vez maior que exige a saída de Assad ou correrá o risco de se distanciar cada vez mais do Egito e outros pesos pesados regionais, como a Turquia e a Arábia Saudita.

Mas o Irã não deu sinais de que romperá com Assad e os rebeldes sírios que combatem o regime rejeitam a participação do país em qualquer esforço de paz.

"O banho de sangue na Síria é responsabilidade de todos nós e não vai parar enquanto não houver uma intervenção de fato para acabar com ele", disse Morsi. "A crise síria faz nossos corações sangrarem."

"Os comentários feitos pelo presidente egípcio romperam com as tradições da cúpula e são considerados uma interferência nos assuntos internos sírios", afirmou o ministro do Exterior da Síria, Walid Moallem, chefe da delegação. Ele também acusou Morsi de "instigar o derramamento de sangue na Síria", segundo declarações feitas por ele à TV estatal Al-Ikhbariya. Mas não entrou em mais detalhes.

Em outra possível alfinetada no Irã, Morsi reconheceu a contribuição da onda de revoltas da Primavera Árabe que o levaram ao poder e desencadearam a guerra civil na Síria.

O Irã aprovou muitas das revoltas - descrevendo-as como reflexo nos dias de hoje da sua Revolução Islâmica. Mas denunciou o levante na Síria como uma rebelião orquestrada por "inimigos", incluindo Arábia Saudita e Turquia.

Os que defendem a Irmandade Muçulmana sunita de Morsi, que se tornou o grupo político mais poderoso do Egito desde as revoltas, são contrários ao suporte incondicional do Irã xiita ao regime sírio, que tem reprimido brutalmente os manifestantes, na maior parte sunitas. Assad pertence à seita alauita, um ramo do Islã xiita.

"Devemos todos expressar nosso total apoio à luta daqueles que estão exigindo liberdade e justiça na Síria e traduzir as nossas simpatias numa visão política clara, apoiando a transferência pacífica (de poder) para um sistema democrático", declarou Morsi.

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